sábado, 29 de setembro de 2018

Sobre a perda e o perdão


Porque os acontecimentos chamam-nos à atenção, mesmo quando não acontecem connosco, mas com pessoas próximas a nós.
A vida é fugaz, e nós sabemos disso. Ainda assim, vivemos os dias como se fôssemos viver sempre o amanhã.
Mas pasmem-se. Não vivemos sempre o amanhã.
Porque nem só a doença é responsável por desprender-nos deste plano terrestre. Andamos aqui todos os dias à mercê de qualquer fatalidade. Um acidente estúpido, uma queda, uma dor repentina, e pronto, vamos embora.
Recentemente, porque alguém próximo a mim viveu uma perda assim. Fez-me pensar ainda mais sobre os dias que passo aqui por baixo, nesta terra que tantas vezes não é correcta nem justa.
Fez-me olhar para mim, para a minha realidade, a minha verdade.
Pedi perdão a toda a gente? Toda a gente me pediu perdão? Perdoei-me a mim?
Disse a todos de quem gostava da imensa importância que têm na minha vida?
Disse a quem amava, que realmente amava?
Pois é. Nem sempre.
Calamos as palavras e calamos os sentimentos também. Porque acreditamos que há sempre um amanhã, e que em algum momento vamos ser capazes ou porque o tempo irá encarregar-se desses sentimentos/palavras.
Devido a este acontecimento, despoletou-me a necessidade de dizer mais o que sentia, com todas as consequências que podem advir daí.
Mas, sabem, dizer a verdade é sempre o melhor caminho. O que é para nós, vai ser sempre para nós. O que não é, não vai ser. Por mais que queiramos que seja.
O que realmente é importante é não guardar sentimentos que nos aprisionam, mesmo quando não percebemos que é isso que nos fazem.
Doendo ou não, ferindo o orgulho ou não, é preciso pedir perdão quando for altura.
É preciso dizer que gostamos dos outros, quando assim é.
É preciso dizer que amamos, quando realmente amamos.
Porque na hora da partida, o coração estará mais leve, o nosso e de quem vai.

© Alexandra Carvalho

domingo, 23 de setembro de 2018

Esta Alexandra que agora existe



Quando olho lá para trás, para os meus escritos íntimos, mais ou menos poéticos. Fico em dúvida, de que esta Alexandra seja a mesma que escreveu todas aquelas palavras carregadas de drama e pouca luz.
As minhas duas décadas de vida foram controversas, e nesta alma que aparentou sempre uma calma e passividade externas, existiu sempre um espírito insatisfeito.
Deste espírito controverso, surgiram poemas interessantes, imersos numa obscuridade que nem toda a gente conseguia perceber.
As palavras nunca são apenas palavras. São emoções.
Na minha terceira década de vida, comecei a encontrar-me. A compreender o efeito que as experiências, todas, têm na nossa vida. A compreender, a aceitar, a aprender e a deixá-las para trás. 
E como resultado, renasceu a Alexandra. Que não só aparenta calma e serenidade. Mas que efectivamente, é calma e serenidade. 
Talvez, não volto a escrever aqueles poemas que de tão dolorosos, eram sublimes e intensos. 
Mas esta é uma escolha. 
Escolhi a serenidade, escolhi o amor. 
Mas o caminho não termina apenas por uma decisão, ou uma escolha. 
E pelos dias fora, serei sempre confrontada com a dualidade da vida. 
O caminho, é isso mesmo. Caminho... 
Não se encerra... A evolução não morre nunca.

© Alexandra Carvalho

O Arraial da minha terra




Sim, o Arraial do Bom Jesus irá sempre remeter-me para lembranças antigas. 
Dos tempos em que acordava eufórica para ver se já havia mais barracas pelas ruas circundantes à minha casa.
O cheirinho a louro das traves colocadas simetricamente. As flores, que ajudávamos a pôr. O interesse era vê-las lá a embelezar o nosso sítio. E ajudávamos como sabíamos. Éramos crianças, adolescentes. 
Mas o Arraial não era apenas isso. Era reencontro. Era família.
A família emigrada chegava sempre dias antes. A avó Piedade ainda estava por cá. O Sr. José também e havia ali, em todos, uma energia diferente do resto do ano. Falavam sobre os bolos a fazer, o pão a amassar. Quem vinha para almoçar connosco, se as tias do Funchal também vinham, o meu avô Ricardo. Era uma azáfama que me agradava. 
Subia ao balcão da casa da minha avó, e olhava. Ficava parada tempos, perdia-me ali. Não sei bem o que via. Apenas olhava para tudo.
Hoje, quando penso no Arraial, o sentimento também é de saudade. Inquestionavelmente penso sempre, passe o tempo que passar na minha avó Alaíde. No calor que eu sentia que vinha dela, percebo agora, que esse calor ou conforto era amor.
Não sei passar o Arraial sem ir a uma barraquinha e comprar os doces de leite, não pelos doces. Mas por ela. Não para a prender a este plano, apenas para reafirmar que as almas que se amam, amam para sempre. 
E aquela criança que perdeu a avó cedo, relembra os doces que ela fazia questão em trazer. É quase um sinónimo de amor.
A família tornou-se pequena. Com o tempo, fomos diminuindo no número, mas não no Amor. 
Este Arraial do Bom Jesus, para mim, para além dos romeiros que atrai, para além de toda uma dinâmica que muda na minha freguesia, para além da fé ou da Religião. Este Arraial relembra que estamos juntos, e que enquanto houver amor, haverá tudo o resto.

© Alexandra Carvalho

segunda-feira, 27 de agosto de 2018




Não tenho a certeza se é cedo.
Sei apenas, que devagar,
Vou querendo ver o teu sorriso.
Mas que arredio que tu és!
Do inesperado, surges, resplandeces.
Mas depois, a concha que te prende ao passado suga-te novamente.
Estás no meio,
Entre uma vida que não queres repetir
E um futuro que tens medo de não ser como mereces.
Mas se mereces, é esse o futuro que irás ter.
Eu talvez seja o futuro que mereces.
Tu talvez sejas o futuro que eu mereço.
Talvez…

© Alexandra Carvalho

quarta-feira, 11 de julho de 2018

É para este amor que estou preparada para viver




A vida no decorrer dos anos foi-me trazendo pessoas. Algumas romanticamente especiais, outras, cujo propósito era a minha evolução, à época, terão sido tudo menos especiais.
Deixei que o meu coração ficasse amargo, permiti não perceber o que aquelas pessoas traziam para o meu caminho.
E por isso, falhei, sucessivamente.
O meu desejo era de um amor pleno, apenas. Tão somente isso.
Na minha feroz ansiedade à procura desse tal amor pleno, fui bloqueando até o que eu merecia. Até aquilo que efectivamente, era suposto eu viver.
E fechei-me ao amor, inevitavelmente fechei o canal que atraía esse sentimento e todas as pessoas que poderiam despoletar essa vivência.
Nesta fase em que me encontro, de reflexão, de reconhecimento, de perdão, de aceitação do passado, já consigo dizer sem medo, sim, não sei se é um amor pleno que eu quero.
Mas quero a companhia que não foge quando os dias são sombrios, o olhar que cruza com o meu e fica em silêncio porque sabe que é no silêncio que eu preciso estar. O sorriso que se abre porque me conhece de todas as formas e feitios, a totalidade da minha essência. A mão que se entrelaça na minha reafirmando que o caminho será a dois, mas que eu estarei sempre no meu, o individual. O ser humano que rejubila com as minhas conquistas. A Alma que não esquece de acariciar a minha, quando porventura, perceber que estou a me perder.
Não sei se é este o amor pleno. Mas é com certeza, para este amor, que finalmente, estou preparada para viver.


© Alexandra Carvalho

domingo, 1 de julho de 2018

Perdão é cura




Estes dias, num texto que escrevi e publiquei, assumi o meu pedido de perdão a uma das pessoas mais especiais que passou na minha vida e que já faleceu, o Mário.
Ando num momento de mudança, de libertação.
A minha terapeuta espiritual confirmou que eu tinha coisas mal resolvidas contigo, eu sabia que tinha, mas ao mesmo tempo pensava que não, ou melhor, eu queria não ter, porque é mais fácil quando não assumimos as coisas. Reconheço que também a ti devo um pedido de perdão, penso que não teremos uma outra oportunidade pessoalmente, porque o teu momento de mudança interior não permite que estejas comigo. Por isso, peço perdão pelas atitudes, todas, que tive contigo. Pelas mudanças de humor, pelas cobranças que sempre fiz. Mas acima de tudo, eu peço perdão pela vergonha que tive sempre, em dizer em voz alta, que gostava de ti. Na minha pequenez de espírito, sempre te adorei, a dois, entre quatro paredes, mas ainda não tinha grandeza suficiente para assumir que gostava de alguém com tão poucas habilitações e que ainda por cima dá erros ao escrever. E por isso, sim, tinhas razão, quando disseste que parecia que eu tinha vergonha de ti. Eu neguei, é verdade, mas porque não era capaz de admitir, porque tinha vergonha de mim por pensar assim.
Nós somos todos iguais, e eu estou sempre a defender isso em todo o lado, mas quando tocou em mim, eu tive vergonha. E escondia ao máximo, o meu encantamento por ti.
Grande lição que eu tinha aqui para aprender, contigo. Demorei, mas já aprendi.
O que interessa não é o curso superior, não é o dinheiro, nem tão pouco é a imagem. O que interessa são os sentimentos puros e o amor verdadeiro.
Quando pedi perdão ao Mário, lá nos céus onde ele está, chorei tanto. Contigo não estou a chorar, talvez porque ainda cá estás, aqui em baixo e poderás me perdoar por tudo, e porque eu também me poderei perdoar e ter tanta vida pela frente, para fazer o certo.
O perdão é cura, e eu, estou a curar-me agora de muitos anos de dor, de lágrimas, de vazio.
Obrigada (a tua alma também não passou por mim em vão).

© Alexandra carvalho

quinta-feira, 28 de junho de 2018

Almas boas não precisam de cá andar muito tempo




Hoje apetece-me falar sobre uma das pessoas mais especiais que cruzou a minha trajectória de vida.
Numa fase de transição conheci o Mário, nome fictício que deliberadamente escolhi para falar sobre esta alma.
Numa época, em que ainda utilizávamos o Messenger do Hotmail conheci-o. Já não sei bem como.
Encontrava-me à data em estágio curricular, na cidade de Setúbal. E tinha espalhados em cada canto do País, os meus amigos de curso, as pessoas que dia a dia tinham partilhado tudo comigo, nesses últimos anos.
Ali, em Setúbal, senti-me só. Inúmeras vezes.
O Mário, com toda a dedicação e serenidade, ia-me confortando à distância. Na ilha, que mais dia menos dia, eu também iria estar.
Como alma companheira, dizia todas as palavras que sabia de antemão que eu precisava ouvir ou ler. E na sua generosidade escrevia-me cartas (ainda as guardo), que me completavam sobremaneira.
Já havia ali um amor puro, que transcendia qualquer ligação carnal ou sexual. É óbvio que a ansiedade em relação a esse encontro de almas crescia, mas em nenhum momento permitimos que tirasse o meu foco, e esse, era a plena dedicação ao estágio, a última etapa do curso, o objectivo primário.
Lembro-me (e aqui com um sorriso no rosto) que quando fiz a viagem para a Madeira após a conclusão do estágio, ele quis lá estar, no aeroporto, fazia questão de ser ele a dar o primeiro sorriso depois de toda a solidão em terras do Sado.
De tão puro e genuíno que tudo aquilo entre nós era, eu não soube lidar.
 E trouxe para o meio, anos de vazio e mágoas que tinha como bagagem.
E perdi-o. Por mim.
Apesar disso, em ocasiões menos boas voltamos a ser parceiros amigos, intimamente queríamos o melhor um para o outro.
A vida correu e o silêncio acabou por se impor entre nós.
Partiu, cedo, um acidente estúpido.
Almas boas não precisam de cá andar muito tempo.
Chorei, ou não sei se chorei, mas interiormente senti a perda.
Ocasionalmente, pensava nele, com um carinho que me saltava do coração.
Dei conta agora, que não lhe pedi perdão. Na minha pouca maturidade emocional não fui capaz de lhe pedir perdão.
Dei conta agora também, que logo de início ele já me havia perdoado. Mas eu não, a mim própria.
Terá chegado esse momento, em que me perdoo por ter seguido o padrão antigo, por não o ter quebrado quando precisava de o fazer.
Mário, cheguei lá, e tu aí, em casa, nos céus, tenho a certeza que te rejubilas de alegria com a minha tomada de consciência.
A tua alma não passou por mim por acaso.

Obrigada. 

© Alexandra carvalho