quarta-feira, 2 de novembro de 2016

A Carlota

https://www.facebook.com/JCarvalhoPhotography
Dizem que as pessoas aparecem na nossa vida, no momento em que são necessárias. Com Carlota não foi diferente.
Acho que é pertinente contextualizar, Carlota, é a cadela que cativou o meu coração.
Ouvi durante muito tempo, que se não conseguia amar um animal, é porque interiormente, não me amava a mim. Que qualquer bloqueio emocional, não me permitia amar. Nunca concordei, era impossível fazê-lo. Eu amava-me, amava os outros também.
Mas Carlota, recém-chegada a casa, pequenita, preta, com uns olhinhos negros que apelavam a que não conseguisse tirar os meus olhos dos dela, veio alterar tudo.
Carlota era da mana mais nova, foi ela que primariamente necessitou da sua presença, mas nada acontece por acaso, eu também viria a precisar dela, mais cedo ou mais tarde.
Olha para mim, agora, que já não é pequena, com o mesmo olhar negro que me cativou lá atrás. Ela está ali sempre. O meu dia sabe bem, quando me sento, feito criança, nas escadas de casa e fico a brincar com ela.
Os dias nem sempre são iguais, e se por qualquer acaso, eu não puder vê-la, falar com ela, sinto saudades, ela também sente.
Este é um amor puro, genuíno. Um amor que não espera nada em troca, mas que dá, sempre, sem restrição.
Dificilmente, veria os meus dias da mesma forma, se não tivesse Carlota.
Penso que antes também já conseguia amar, mas sim, ela trouxe-me uma dimensão de amor, diferente da que eu conhecia e sentia.
E por isso, obrigada à mana, que a trouxe, e obrigada Carlota, por seres aquele primeiro animal que me fez amar incondicionalmente.


© Alexandra Carvalho

domingo, 23 de outubro de 2016



Sinto aquele frio que timidamente passa pelo meu rosto. 
A maresia invade-me de tal ordem, que pareço deixar de respirar.
E as ondas, ora bruscas ora suaves, entoam aquela melodia que me reconforta.
Deixo-as para trás, permito que os meus pés sigam caminho. 
Lá voltarei, sempre.


© Alexandra Carvalho

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

A escolha que é minha, tua, nossa


Algo nos atrai e repele, e é curioso pensar sobre isso.
Penso que nenhum de nós está preparado para um amor assim, aquele amor que defendemos como sendo o único, o puro, o genuíno. E porque o defendemos, e porque sabemos de antemão que este será o primeiro, nasce o medo. O medo que é calado, que não se denuncia.
Deixamos que os dias corram, que o tempo faça o que tem a fazer. Não escondemos o que sentimos, mas também não o dizemos.
Imagino o desfecho. Seremos capazes de o aceitar, de finalmente, sermos nós próprios, estando um com o outro?
Com os defeitos que ambos conhecemos um no outro e os restantes que ainda não tivemos tempo de conhecer?
Com as qualidades que já adoramos e todas as outras que certamente sobressairão depois?
Diz-me, que desfecho prevês?
Seremos capazes de aceitar o desafio que, inevitavelmente, nos trará a felicidade?


© Alexandra Carvalho

quarta-feira, 5 de outubro de 2016


Aproximas-te devagar e o meu corpo estremece. O teu sorriso encontra o meu e é inevitável, fico sem jeito.
Pergunto-me se percebes? Se o meu corpo me denuncia, se a minha voz trémula sobressai?
Tento controlar as minhas emoções, dou ordem aos meus sentidos para que se estabeleçam.
No fundo, queria o teu beijo. Não sei se o terei, mas intimamente, desejo-o.
Desejo o teu toque pelo meu rosto, pelo meu cabelo. O toque a dizer que sentes o mesmo. O sorriso que comprova que me encontraste, que já me encontraste. Que me consegues ler, que leste desde o início.
E para mim, por ora, bastava isso.


© Alexandra Carvalho

domingo, 2 de outubro de 2016

Auto-análise



De vez em quando é preciso parar.
É preciso parar e olhar a direcção que deliberadamente ou não estamos a tomar na nossa vida.
Hoje, eu parei e olhei para o meu caminho. Acho que não estarei assim tão mal. Ainda assim, momentos há, de vulnerabilidade e nostalgia, em que penso que não pode ser só isto.
Sinto que ainda me falta todo um processo que me proporcione alcançar a minha verdadeira missão terrena.
O coração sente-se pequeno.
As palavras inundam-me imensas vezes, algumas, passo-as para o papel, outras não. Deixo-as fazer o trabalho que é suposto, são palavras minhas, exclusivas para que medite sobre as decisões que venho tomado e que todos os dias tomo.
Deixo que façam a cura que preciso. É naquele preciso momento, que surgem em debandada, que uma das maiores decisões é feita. Escolho entendê-las e seguir a jornada, ou ignoro-as, e tudo continua igual.
Nem toda a opção parece fácil, há caminhos que se assemelham mais complexos e sinuosos. No fim, somos nós que os fazemos assim ao atribuir essa conotação. É o medo.
Para evoluirmos, precisamos não ter medo.
A vida faz-se com mudanças, se assim não for, não viemos cá fazer nada nem aprender nada.
Olho para trás e há memórias que parecem ter sido vividas por outro eu, que não é este de agora. Mas isso, deixa-me feliz. A evolução acontece, ora lenta, ora mais acelerada. Mas acontece.
Hoje, o coração sente-se pequeno. Estarei a caminho de outro patamar, que não cabe neste eu? 

© Alexandra Carvalho




quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Plenitude


Nós não sabemos, nunca sabemos quando é que a partida se aproxima. Mas sabemos sim, se existe medo se não. Se nos invade a sensação atroz de não querer ir embora.
Não tenho medo de ir embora.
Não sou daqui.
Lamentarei apenas, caso parta, sem antes conhecer o verdadeiro amor, o puro, o único.
O amor que era suposto encontrar nesta vida e não na próxima.
Terei porventura falhado novamente e deixei-o escapar por entre a minha até então, tumultuada personalidade. Esta alma que apenas recentemente começou a conhecer a paz.
A conhecer-se, a cada uma das suas partes.
Enquanto não nos conhecemos, enquanto não alcançamos a nossa paz interior, o amor vai passando ao nosso redor, mas não somos capazes de o reconhecer, nem tão pouco de o aceitar.
A alma sem plenitude não é capaz de viver o que lhe está destinado.
O amor é o estado puro da plenitude. O amor, nas suas diversas formas. Quando o entendemos, apresenta-se então a alma gémea. A alma que nos acompanha vida após vida, que nos acompanha no alcance da sabedoria e da evolução espiritual.
Lamentarei apenas partir sem que tenha sido capaz de a reconhecer.
Todavia, a evolução continuará.
Sempre continuará.


© Alexandra Carvalho

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Dualidade

https://www.facebook.com/JCarvalhoPhotography/
E porque em algum momento temos de nos libertar das máscaras que, uma após a outra fomos incorporando na nossa vida, hoje, estou a libertar-me das minhas.
Parecia fácil usá-las! Embora à noite as retirasse, o peso tendia a permanecer. Cada uma deixava algo em mim.
Hoje decidi libertar-me delas, mas a verdade é que deixei de as usar faz tempo e desde que o fiz o sorriso é praticamente permanente e real.
Não tentarei ser outros eus senão aqueles que já sou, e bastam-me esses.
Sim, outros eus, porque não sou apenas um. Tendo a não acreditar que alguém tenha apenas um eu.
Não somos tão lineares.
Vamos acumulando ao longo do tempo, características divergentes e sim, aí deixamos de ser apenas aquele eu que achávamos que éramos. Somos esse e o outro que entretanto se apoderou de nós.
Hoje estou a assinar a minha carta de alforria.
Deixo para trás as máscaras que não me assentam bem e os amores, as paixões que inconscientemente deixaram resquícios, porque eu permiti que continuassem alojados.
O passado não deve caminhar no presente, deve apenas ser um indicador do percurso que tivemos até aqui, deve funcionar como um impulsionador a não cometer os mesmos erros. Mas jamais deve interferir com o presente.
Os amores terminaram, tiveram a função que era suposto terem. As paixões arrebatadoras, não passaram disso mesmo e já não fazem sentido.
Dou autorização ao meu coração que se liberte deles.
Ainda que não surja outro amor, sinto-me livre para o acolher quando chegar.
Acima de tudo, sinto-me livre para viver com a plena certeza que agora nada me condiciona.
Hoje sou o eu que quero ser.
Amanhã posso ser o outro, ainda assim, serei eu exclusivamente, a decidir qual deles incorporar.


© Alexandra Carvalho