domingo, 13 de dezembro de 2015

Já vi este mesmo olhar

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Já vi este mesmo olhar
Com outro brilho,
A emanar uma luz incandescente
De tão real que era.
Já vi este mesmo sorriso
Abrir-se sem razão,
Como se não houvesse um amanhã por vir.
A rir desmedidamente e sem razão.
Mas agora, este mesmo olhar
Está apagado, obscuro,
A emanar uma agressiva tristeza
De tão real que é.
Agora, este mesmo sorriso
Não encontra razão, nem quando há razão.
Fechou-se para todas as gargalhadas da vida.
Fechou-se, temporariamente, e sem razão.


© Alexandra Carvalho

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Apego

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Quando o meu olhar desvia para o passado, a tua presença assume-se uma constante. Uma existência que me desarma, que me atordoa.
Mas a tua presença não me é benéfica, não me favorece, pelo contrário, consome-me a energia que tantas vezes, por si só, já é oscilante.
Tenho dificuldade em desapegar-me de ti, por tudo aquilo que partilhamos juntos, e que eventualmente, poderíamos voltar a partilhar.
Todavia, pela primeira vez, a minha consciência tomou o seu lugar de direito e alertou-me, tu não és aquilo que eu quero para esta vida.
Quando olho lá para trás, para além da intensidade dos momentos que vivenciamos, há uma panóplia de tristeza, dor, dúvida e solidão.
Não há intensidade que valha uma vida carregada de incertezas.
Não vou dizer que amanhã passarás a ser uma figura do passado, mas posso sim dizer, que hoje entendi que preciso deixar-te, e que amanhã continuarei o processo de desapego.
Tenho saudades tuas e amanhã, as saudades serão as mesmas, até que acabarão, silenciosamente.
E só aí, estarei livre.


© Alexandra Carvalho

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

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Ainda que te ouça,
Não consegues chamar-me.
A tua voz assume-se estranha
E sem interesse.
Ainda nem consigo entender-te
Como uma presença que me faça falta.
Não sei porque apareceste
Nem sei se quero que fiques.
Persegue-me a dúvida,
Mas sente-se agradado o ego.



© Alexandra Carvalho

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

O Arraial da minha terra

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Cada vez mais, as festas religiosas se distanciam da sua essência. Mas ainda assim, há uma ou outra que se mantém praticamente inalterada, falo sim, do Arraial em honra ao Senhor Bom Jesus. O auge das festividades na minha freguesia, Ponta Delgada.
Quando penso sobre o arraial, mais do que música e bebida, penso em família, em união e de certa forma, em fé. Não porque a génese deste arraial é a religião, mas porque todos os anos se renova a vontade e a fé, que para o próximo ano estejamos todos reunidos.
Acima de tudo, para os locais, este é o momento em que as famílias se juntam, riem, divertem-se e partilham do que é mais sagrado, a união familiar.
Ao contrário de outras festas da região, que sentem necessidade de ir buscar atracções musicais nacionais para dinamizar o evento, esta festa não precisa de o fazer.
Essa não é a sua essência. Esta é uma festa de fé.
Quem vem, mais do que qualquer outra coisa, vem agradecer as graças que o nosso padroeiro lhes concebeu. E isso, por si só, é motivo que baste para que percorram quilómetros para cá vir.
Se um dia, e espero que tal não aconteça, este Arraial fugir da sua tradição e história, e necessitar de fazer o mesmo que outras festas, estaremos a um passo de perder a alma deste grande Arraial do Bom Jesus.


©Alexandra Carvalho

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

A minha mãe

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Acho que não há outra palavra para definir a emoção de uma mãe ao ver todos os filhos juntos senão a palavra amor.
Os filhos crescem e nem todos ficam perto dos pais. Ainda que os laços não se percam, perde-se a presença.
Vejo isso agora, o sorriso da minha mãe, ao ver na mesa os três filhos. Delicia-se a olhar para nós, enquanto falamos, porque durante meses, ela não teve esse prazer.
Pensa no prato que irá fazer, que satisfaça a todos e ainda diz, espero que gostem, foi feito com carinho.
Bem, o comer da mãe é sempre bom. Concordaremos todos com esse facto. Porque foi a nossa mãe que fez, com a entrega e dedicação que mais ninguém consegue ter, para nós filhos.
E eu costumo dizer, a minha mãe faz muito bem sobremesas, é a melhor a fazer este ou aquele pudim. Todavia, não me lembro de algum filho dizer que a sua mãe não é a melhor também.
Acima de tudo, é o amor. É o que transforma todos os pequenos momentos em algo muito mais profundo e especial.
Nem sempre os irmãos se dão bem, mas, o brilho no olhar de uma mãe vale superar qualquer desavença ou diferença que possa existir.
Que todos os filhos pudessem perceber isso.


©Alexandra Carvalho

quinta-feira, 30 de julho de 2015

Considerações sobre mim própria

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Costumo dizer que sou uma pessoa sorridente, mas estou longe de ser uma pessoa fácil.
Acho que trago em mim demasiada insatisfação. Pouca gente me preenche, poucas coisas também.
No outro dia um amigo do meu pai dizia-me assim, uma rapariga bonita e não se casa. Está mal.
Não me parece que esteja mal.
Se me perguntarem se sinto falta disso, de um marido, de filhos? A resposta é rápida e clara, não.
Tenho dúvidas que exista alguém que mate parte da minha insatisfação, tenho sérias dúvidas que alguém me perceba, me veja como realmente sou.
Mas a culpa é minha. Não me dou.
O padrão não me diz nada, olho em volta, para estes casais, estas famílias, e sinto que jamais me encaixaria naquele perfil.
É uma decadência espiritual tão grande, que me atordoa.
Eles não mostram quem são, e elas subjugam-se ao que supostamente eles querem que elas sejam. Há maior decadência humana e espiritual do que esta? Não creio. E não quero para mim.
Tenho 31 anos, não sei se ficarei sozinha, se inusitadamente, aparecerá um homem que olhe para mim e veja tudo, pela primeira vez, corpo e alma. E que mesmo vendo, queira ficar, não tenha medo de ficar.
Até lá, a vida segue.


© Alexandra Carvalho

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Invasões

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As memórias invadem-me a mente,
Silenciosas, intimidantes, atrozes.
Num ápice, ouço vozes,
Umas que chamam à atenção,
Outras, que me libertam.
Fiz apenas o que me apetecia fazer,
Lá atrás, não agora.
E é lá atrás que elas precisam ficar,
No passado, aonde pertencem.
Deixo-as lá, não apago.
Noutro dia, voltarão,
Menos intimidantes, atrozes e silenciosas.


©Alexandra Carvalho