terça-feira, 29 de abril de 2014

Analogia: passado/presente

E todos os dias fazia o mesmo, o ritual de acordar e olhar o mar. O sol estava a nascer ou pelo menos, começava a chegar ali naquele momento. Os raios prolongavam-se no mar calmo, bem ali, à minha frente.
Ficava de pé, ainda de pijama, no balcão da casa da minha avó, deslumbrava-me com aquela luz que me fazia bem. Não sei se já haviam pessoas a passar na rua, não me recordo, isso pouco interessava.
Hoje, confunde-me a falta de gente na minha terra, mas quando somos crianças valorizamos outras coisas.
O verão passava-se assim, as manhãs na piscina, algumas tardes também, ou então por aí, a brincar. A descobrir uma localidade que parecia tão grande, mas que afinal, é tão pequena.
Quando relembro essa época, apercebo-me da grande vantagem de ter crescido no campo, a liberdade. Os carros eram poucos e não circulavam o dia inteiro. Brincávamos na rua e caso um carro se aproximasse, só precisávamos nos afastar, iria tardar a aparecer outro.
Hoje, curiosamente, vejo mais carros acima e abaixo, do que propriamente gente.
Noutra casa e noutra varanda, ainda me debruço a olhar o mar mas os pensamentos que vagueiam não são os mesmos do passado.
Quando recuo no tempo, é saboroso pensar nas experiências e nas amizades. Nas que se mantiveram, poucas, e nas que deixaram de existir com o decorrer dos anos.
Não há ressentimento, os seres humanos passam a vida a perder-se e encontrar-se. Nós mudamos a todo o instante e quem nos identificávamos antes, de repente, deixam de fazer sentido na nossa vida, e vice-versa, é assim.
No entanto, a infância e adolescência foram passagens fulcrais, que de certa forma, influenciaram todo o meu percurso posterior.
Lá de vez em quando, escrevo um bocadinho sobre quem fui e quem sou, mas desta vez, as palavras pediram-me que falasse sobre a minha terra, as gentes, o passado, a vida que foi e que é agora.
Os quase 30 anos, já me permitem olhar para trás, relembrar e compreender a sociedade onde cresci. A cultura vincada e uma mentalidade que cada vez mais se liberta do sentimento de interioridade.
A cidade aproximou-se de nós e sem provocar muito alarido, foi moldando personalidades e comportamentos.
Sim, existem conversas paralelas, há quem continue a dar azo a conflitos desnecessários, há quem nutra pelo vizinho do lado aquela inveja tão típica dos tempos idos.
Ainda existe tudo isso, ou não seríamos nós, uma freguesia maioritariamente envelhecida.
Mas, a par disso, há todo um individualismo crescente, uma desatenção em relação aos outros.
A realidade, a Ponta Delgada tornou-se uma terra abraçada à solidão.
As ruas estão desertas, e a culpa não é apenas da emigração, vivemos apenas para nós, cada um na sua casa e esquecemos que existe gente à nossa volta.
A aproximação à cidade trouxe uma panóplia de vantagens, mas ao mesmo tempo, mudou a nossa identidade como terra. Nem somos uma coisa, nem somos outra.
Pergunto-me, que identidade pretendemos construir?


© Alexandra Carvalho

quinta-feira, 13 de março de 2014

E se de um momento para o outro deixássemos de existir

https://www.facebook.com/JCarvalhoPhotography
A pergunta é silenciosa
Mas fazêmo-la.
E se de um momento para o outro
Deixássemos de existir?
Existir, no sentido terreno, entenda-se.
O medo de ir embora não me atormenta.
Mas sinto que há muitas palavras por dizer,
Muitos sentimentos por demonstrar.
Tenho medo sim,
De todos, não terem sentido que os amava.
Assusta-me a minha inabilidade
De dizer o que sinto;
A minha habilidade em fechar-me,
Em esconder-me dos afectos.
Afasto-os o mais que posso.
Alma estranha esta!
Conscientemente sei que sou assim,
Inconscientemente não consigo mudar.
E se de um momento para o outro
Deixasse de existir,
As palavras por dizer não teriam sido ouvidas,
Mas certamente, poderão ser lidas.
A alma estranha,
Mostra-se transparente no papel.


© Alexandra Carvalho

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

https://www.facebook.com/JCarvalhoPhotography

Olhamos para trás
E as imagens assumem-se remotas.
Resquícios de um tempo
Que quase deixamos de acreditar que vivemos.
Parece ter sido vivido por outro eu,
Distante deste que agora existe.
Mas relembramos, saboreamos os momentos.
Eternizamos cada passo dado,
Cada aventura vivida,
Cada olhar partilhado.
Viveríamos tudo outra vez?!
Seríamos capazes de voltar
Ao tempo que se assume remoto?
Jamais.
As memórias servem apenas
Para nos deliciarmos
E relembrar-nos do que nos tornou,
Neste eu, que agora existe.


© Alexandra Carvalho

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Reflexos/realidade

https://www.facebook.com/JCarvalhoPhotography
O espelho está ali,
Bem à nossa frente.
Mas não sei que imagem vejo.
Tentamos mudar o que ali vimos,
O reflexo do que não queremos ser.
A cor do cabelo passa a ser outra.
Disfarçamos a infelicidade com maquilhagem.
Mas é certo,
Se o olhar é baço
E o sorriso triste,
Não há maquilhagem que nos safe.


© Alexandra Carvalho

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

e as memórias tendem a reaparecer.
Misturam-se todas, as do passado e as do presente.
E deixamos de raciocinar.
Tentamos juntá-las, catalogá-las e acima de tudo, entendê-las.
O passado nem sempre parece o certo.
Tal como somos no agora,
o passado parece um erro medonho.
Mas por isso mesmo, é que está lá atrás.
E se parece irreconhecível, estaremos no caminho certo.
As vivências ensinaram-nos tudo o que era suposto.
Ainda assim, a cada luz que se apaga,
a cada noite que nasce, nós continuamos os mesmos.
As memórias entrelaçam-se umas nas outras,
e talvez, não tenhamos aprendido tudo.
Será, porventura, esse o cerne da vida.
Relembrar, e todos os dias reconhecermo-nos.


© Alexandra Carvalho




quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

https://www.facebook.com/JCarvalhoPhotography
O frio enregela-me os dedos e tento perder a vontade de escrever. Grande parte das vezes consigo o feito, aconchego-me novamente na cama e deixo a série continuar. Que de resto, é das poucas coisas que me entusiasma nestes tempos.
Tenho acorrentado as palavras, não todas, mas as minhas palavras, os meus tais devaneios.
Hoje deparei-me com algo que me fez ressurgir. A minha ausência foi notada, e isso, de certa forma fez-me despertar para o meu verdadeiro eu. Eu não sou aquela que se aconchega nos lençóis e permite-se não pensar em mais nada.
Nos meus silêncios, a mente fervilha e jamais deixei de extravasar o que senti, a revolta, a dor, a felicidade, as pequenas conquistas, as emoções, principalmente as emoções.
Do nada, senti vontade de me anestesiar, planar sobre os dias. Não sei onde andam as emoções, não as encontro, elas também não me encontram.
Mas as palavras saltitam na minha cabeça, não as escrevo, nem tão pouco as falo. Vão saltitando, e interiormente, dando respostas às minhas perguntas.
Por ora, apenas me apetece agradecer a quem, intencionalmente ou não, me fez voltar.
Obrigada.
 
© Alexandra Carvalho
 
 

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Poucas palavras há a dizer,
pareço gostar de estar em silêncio.
Faz-me bem, pelo menos.
Por ora, a poesia reconforta-me.
Lembra-me quem sou.
Isolo-me não raras vezes,
o mundo confunde-me,
e apenas a caneta e o papel me trazem de novo à realidade.
Não sei muita coisa,
mas esta sociedade parece estar a enganar-se a si própria.
Todos parecem caminhar para o lugar errado,
mas talvez, já seja eu a divagar.
Remeto-me novamente ao meu silêncio,
às paredes silenciosas do meu quarto,
às ondas que vão e vêm, no mar aqui ao lado.
Basta-me isso, ou talvez, desejo que apenas isso baste.

Alexandra Carvalho