domingo, 27 de novembro de 2011

Tu


Dei comigo a pensar em ti,
Tal adolescente ansiosa,
Desejei as tuas palavras e a tua atenção.
Dei comigo a sorrir sozinha,
A pensar no impensável,
A desejar o indesejável…
Vou deixar-me ficar assim,
O sorriso voltou,
Permitir-me-ei ficar com ele.


sexta-feira, 25 de novembro de 2011

O SABOR DA MORTE (Parte 9)


Daniela era conhecida de facto, mas nunca tive interesse em ver revistas cor-de-rosa, nem entrevistas superficiais, então, a cara dela passou-me sempre ao lado. Sabia que era muito fútil, estudou Direito, por obrigação, não tinha o menor interesse em algum dia vir a exercer, movimentava-se muito bem entre todos os círculos sociais, frequentava todo o tipo de eventos, bem, pelo menos aqueles que ela considerava dignos da sua presença.
Era uma mulher muito bonita, esbelta, elegante, tinha uns longos cabelos negros, olhos igualmente negros que contrastavam com a sua cor de pele branca, usava franja, desde pequena mantinha esse detalhe, o que lhe dava um ar diferente, de menina adulta.
A verdade é que quando ela se apresentou, o chão desabou, fiquei atónita, completamente sem reacção, mas o que é que esta mulher veio fazer a uma hora tão tardia ao meu apartamento, aliás, como é que ela sabe onde eu vivo?
- Muito bem, é a filha do jornalista. Mas o que eu não estou a entender é a sua visita. Um bocado fora de contexto, direi.
- Talvez numa primeira análise, mas depois de eu falar o que tenho para falar consigo, as dúvidas certamente se dissiparão.
- Se é para falar novamente da autópsia, digo desde já que não estou interessada em fazê-lo, já passaram meses, eu voltei à minha vida normal, finalmente, não estou interessada em fazer ressurgir problemas, como deve entender não tenho nada para falar.
- Você não, mas eu tenho. Antes de mais, já sei que anda muito próxima do meu namorado, o seu colega Ronaldo, ele não me disse nada, mas eu tenho facilidade em saber de coisas, principalmente quando me interessam. Existem várias vantagens de ser filha de gente importante, temos acesso a tudo, literalmente tudo, então nesta ilha, enfim, você sabe. Mas isso é o de menos, você falar com ele não me atinge muito, mas o teor das conversas já me preocupa.
- Que teor? Que tipo de conversa pode haver entre colegas? Trabalho, apenas.
- Não Anabela, você sabe que não. Mas eu também não pretendo aprofundar isso, eu vim aqui para lhe fazer um aviso.
- Um aviso? Isso é para tomar como algo negativo? Uma ameaça?
- É livre para entender como quiser. É um aviso bem simples de assimilar. Tenha muito cuidado com o que anda a tentar fazer, a tentar saber, mais cedo ou mais tarde, será descoberta, e tenho a plena certeza que você não sabe os problemas que isso vai acarretar para a sua vida. Tenha muito cuidado.
Disse aquilo, deu boa noite e foi embora. Perdi o sono, e a hora tardia já nem me importou muito, fiquei atordoada, com medo. Ela foi firme no que disse, ela sabe que estou a tentar descobrir mais coisas sobre a morte do pai dela. Mas afinal, ela veio ameaçar-me ou alertar-me? É a dúvida que permanece.

© Alexandra Carvalho

O SABOR DA MORTE (Parte 8)


Passaram alguns dias, não voltei a estar nem com o Pedro nem com o Ronaldo, a verdade, é que também não tive uma semana calma, não tive tempo para os procurar mas nenhum deles teve a iniciativa de o fazer.
O trabalho consome a maior parte do meu tempo, e os pequenos momentos livres que tenho é para descansar em silêncio, para ler, ver televisão ou navegar na internet.
Por outro lado, também não queria dar justificações ao Pedro, falar do meu colega, daquilo que conversamos e do que ficou para conversar. Sentia-me pressionada e cansada, deixei-me ficar quieta, na minha rotina diária. Em algum momento voltaria a falar com eles, mas não agora.
Já sabia que depois de ter decidido investigar por conta própria a morte do jornalista a minha vida iria mudar, mas provavelmente não pensei que fosse tanto, na minha ingenuidade nem tinha bem a noção de onde me estava a meter, que confrontos eu poderia vir a vivenciar. Eu sabia que o jornalista era famoso, sabia que era um meio que eu não conhecia bem. É verdade que eu fazia parte de um meio elitista, que conhecia muita gente na saúde e mesmo noutros ramos, mas os anatomistas patológicos não costumam ter um papel muito visível, fazemos parte do meio, mas somos facilmente obscurecidos perante os outros especialistas da saúde. Diga-se de passagem, que é muito mais bonito ser cardiologista, pneumologista, ou algo assim.
Já tinha passado por todo aquele processo de descrença no início de tudo isto, e foi difícil mas efectivamente, não pensei em nenhum momento que pudesse vir a ser ameaçada, mas fui.
Já era tarde, lembro-me de olhar para o relógio do computador e ter visto que já passava da meia-noite, não costumava ficar até tão tarde acordada e muito menos na internet, mas naquele dia tinha decidido tirar tempo para fazer pesquisa e surgiram documentos tão interessantes que me deixei ficar presa ao computador.
A campainha tocou, não a da porta de acesso ao prédio, mas a do meu apartamento, fiquei intrigada, quem é que me vem chatear àquela hora? Devia ser algum vizinho ou alguém do condomínio.
Não era nenhum rosto conhecido, pelo pouco que conseguia ver pelo olho da porta, era uma mulher, não me pareceu suspeito, e abri a porta.
- Boa noite, pela expressão de dúvida já percebi que não sabe quem sou, mas é muito fácil, Daniela Fonseca.

© Alexandra Carvalho

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Acaso

As tuas palavras

Ecoam nos meus ouvidos

Como se de sinos se tratassem…

A melodia conforta-me,

Traz algo especial aos meus dias.

Cá dentro, é como se te conhecesse,

Como se fosses um acaso do destino.

Sabendo ou não,

Tu disseste o que eu precisava ouvir.

Fizeste renascer a parte de mim

Que eu deliberadamente,

Deixara esquecida no passado.

domingo, 20 de novembro de 2011

O SABOR DA MORTE (Parte 7)

Talvez possa parecer estranho, mas quando Pedro tocou a campainha do meu apartamento, eu hesitei em abrir a porta. Via-o através do monitor do interfone, ele estava inquieto, um olhar preocupante, não sei o que teria para me dizer, eu é que não lhe queria contar nada sobre o meu dia.
Não abri a porta, mas nem é preciso dizer que em segundos o meu telemóvel estava a tocar, podia muito bem dizer que não estava em casa, ele não tinha como saber, não tinha acesso ao estacionamento, por outro lado, eu estava com vontade de mentir para o meu amigo de infância, e isso nunca tinha acontecido antes.
- Sim.
Tentei parecer o mais normal possível.
- Então Anabela, não estás em casa? Acabei mesmo de tocar na campainha do teu prédio, acabei por desistir, vim até ao café em baixo, está tudo bem?
Era mentira, ele continuava lá e dizia-me que estava no café, estávamos os dois a mentir, não sei bem porquê.
- Está tudo bem, não te preocupes, nem tenho dito nada, a investigação está em pausa, ando cheia de trabalho, sabes como é. Agora vim à casa do Fabrício, ele estava a precisar falar, anda novamente com problemas existenciais, aquelas coisas dele, sabes?
- Pois, esse homem passa a vida nisso, é como se a vida dele fosse a pior de todas, desilusões amorosas deviam passar rápido, mas ele deixa-se ficar nas recordações. Mas está bem, dá-lhe apoio, depois ligo mais tarde. Contas-me o que soubeste com o médico, o teu colega.
- Sim, sim, não te preocupes. Irei pôr-te ao corrente das novidades. Até logo. Beijo.
Desliguei, não me sentia bem, uma estranha sensação de desconforto apoderou-se de mim, eu menti descaradamente ao Pedro, à única pessoa que seria incapaz de mentir, pelo menos, até hoje. E agora o Fabrício, tenho de o avisar deste episódio não vá o Pedro falar-lhe disto. De repente, a minha vida estava a tomar um caminho sinuoso, até onde isto irá.

© Alexandra Carvalho








sexta-feira, 18 de novembro de 2011

O SABOR DA MORTE (Parte 6)

- Anabela, nós já falamos há algum tempo, e cada vez tornamo-nos mais íntimos, até agora ainda não percebi o que te impulsionou a isso. Sempre fui fechado, não é novidade, sei bem o que o pessoal diz por aí, então resta-me uma pergunta, qual é o teu interesse?
Naquele momento o chão fugiu-me dos pés, mas que resposta plausível conseguirei inventar tão rápido, ou direi a verdade, correndo o risco de acabar com qualquer ponta de esperança em descobrir alguma coisa. Não me ocorreu mais nada, senão, desconversar.
- Interesse?! Mas que tipo de interesse poderia eu ter em ti? Segundo me consta somos colegas, não vejo nada de estranho nisso, mas porquê, tu vês?
- Vejo, completamente. Não sou do tipo de ter amiguinhos entre os colegas de trabalho. Basta olhar à volta, e ver que tipo de relação tenho com os colaboradores do hospital. Então, sim, vejo algo de muito estranho nisto.
- Não tens amiguinhos, mas provavelmente por isso, deixaste que eu te abordasse. Já pensaste nisso?
- E era sobre isso que estávamos a falar? Se achas que o teu poder de desconversar é assim tão magnífico, enganas-te, redondamente.
- Mas afinal, achas que posso estar a querer seduzir-te! É isso?
- Seduzir, não. És demasiado inteligente e coerente para o fazer. Sabes que tenho namorada, sabes que jamais me envolveria com alguém do meu núcleo profissional. Há um interesse qualquer, já me passou algumas ideias pela cabeça, mas ainda não tive vontade de explorar isso.
Mas que ideias é que lhe passaram pela cabeça, será possível que esteja a desconfiar da verdade. Ele é antissocial mas não é desatento.
- Anabela Fontes, não sou otário, nem vou fingir que sou, só para facilitar a tua vida.
- Como assim? Não tenho a certeza se consegui perceber onde queres chegar.
- Simples, acho que é óbvio e ambos concordaremos nisso, tu sabes com quem namoro, ainda mais óbvio que saibas quem era o pai dela, e concordaremos certamente nisto também, tu fizeste a autópsia do Tiago, na altura em que ele morreu. Agora, ainda mais simples é, tu foste desacreditada na época, por causa do teu resultado na autópsia, para além disso, houve a necessidade de fazer nova autópsia pelos médicos da clínica que a família dele frequenta. Precisas de mais?
- Hummm, mas achas que eu me aproximei para tentar saber coisas sobre essa decisão de fazer nova autópsia?
- Claro que não, tu aproximaste-te porque sabes que ele não teve um ataque cardíaco, ele foi assassinado, e estás revoltada porque ninguém investigou este homicídio.
Sim, agora faltaram-me as palavras e os argumentos também. E tenho a certeza que ele percebeu isso. Terei aqui um aliado, ou um suspeito?
- Essa é uma informação com rasteira? Ou devo comentar isso? Estou à deriva.
- Desde o início que percebi que a tua aproximação, devia-se a esse facto. Deixei passar, porque tu és uma colega simpática e interessante, para além de que concordo contigo, pelo menos até um certo ponto. Não sei se te posso ajudar, estou demasiado envolvido naquela família, mas a verdade, é que também não sei assim tantas coisas. Eu sou o namorado da filha, não o marido, e aí está uma diferença abismal, no que toca a informações privilegiadas.
- Acho que agora não vale a pena continuar a farsa, acertaste no ponto. Agora a minha carreira está mais equilibrada, mas naquela época, as coisas não foram fáceis, nada mesmo.
Senti que podia confiar nele, a sua transparência e clareza demonstravam a sua honestidade e carácter. Não valia a pena continuar a mentir.
- Tens razão, está na altura de falar, de tentar explicar o porquê de ter travado conversa contigo naquele dia. Mas não quero que isso afecte o relacionamento que temos, agora. Acredites ou não, comecei a gostar de ti. És um bom colega.
- Um bom colega, bem, talvez isso seja exagero. Não sou muito sociável, por opção, este hospital é pequeno demais para que possamos criar amizades, há muitas conversas paralelas, e eu nunca gostei disso. Irritam-me.
- Tens razão, as instituições são como os locais, pelo meio há sempre conversas paralelas, comentários mesquinhos, nem sempre apetece interagir com esse determinado tipo de pessoas.
Por destino ou não, a verdade é que surgiu ali um entendimento maior do que estávamos à espera, penso que surgiu logo no início. A química não se explica, sente-se e aproveita-se.
E quando a nossa conversa iria finalmente se desenrolar, aparece do nada uma enfermeira toda apressada a chamar pelo Dr. Ronaldo Figueiredo, é claro que ficamos por ali, mas inevitavelmente voltaríamos a conversar.

© Alexandra Carvalho






















quinta-feira, 17 de novembro de 2011

O SABOR DA MORTE (Parte 5)

O Ronaldo é um ser humano confuso, não se trata de maneira nenhuma de um médico popular, em que os utentes encontram na rua e abordam, pelo contrário, mantém uma postura fechada, não socializa dentro do Hospital nem na Clínica onde trabalha a tempo parcial.
É um bom médico dentro da sua especialidade, neurocirurgia. A Ilha da Madeira é pequena, então torna-se fácil detectar os bons médicos em cada especialidade, uma vez que são praticamente uma minoria.
Diz-se entre os utentes que até nas consultas ele mantém-se demasiado sério, focaliza-se apenas nas questões centrais, que interessam no estado do paciente e não permite extravasar para outros temas que não lhe digam respeito.
Tive sorte, porque nesse mesmo dia encontrei-o num dos corredores do hospital, e por mais estranho que pareça, sorriu, um leve cumprimento, mas sim, sorriu.
Não foi de todo complicado travar conversa com ele, talvez entre colegas, o círculo de socialização não fosse tão fechado. Falamos de assuntos do hospital, a falta de pessoal que por vezes é visível, médicos em especial. E isto manteve-se alguns dias, em encontros casuais, no bar do hospital ou até mesmo no café ali perto, onde muitas vezes, a equipa médica vai, naquela necessidade de sair do espaço durante os períodos de lanche, ou simplesmente para tomar café, algo que acontece com pouca frequência, não há tempo que sobre num hospital.
Nunca demonstrei interesse em demasia para que o meu colega não percebesse que queria dele muito mais do que simples conversas. Mas a verdade é que em algum momento fui transparente e em pouco tempo a conversa que eu procurava simplesmente surgiu.

© Alexandra Carvalho