quinta-feira, 13 de outubro de 2011

O tempo passa

Onde é que estás?
Em que paragem ficaste
Que até agora não nos encontramos?
O meu olhar procura o teu,
Mas apenas encontro o olhar vago
De estranhos, desconhecidos,
Olhares errados…
Enganei-me algumas vezes,
Desculpa, a solidão fez-me
Reconhecer-te em qualquer desconhecido
E deixei-me cativar…
Demoras tanto,
Não sei se ainda quero esperar
Ou se deixarei mais algum estranho
Penetrar no meu olhar…
O tempo passa e com ele,
A minha vida vai perdendo dias,
Meses, anos, a tua vida também…
Em algum momento, segue o teu coração
E vem ter até mim,
Não demores,
Espero por ti aqui, neste tempo,
Nesta vida que planeamos os dois.
Cansei-me dos outros,
Apaguei os seus papéis,
E as memórias que partilhamos
Deixaram de ser importantes…
Não demores, o tempo passa…

domingo, 25 de setembro de 2011

Entre metas e desígnios

Não sei que metas escolhi;
Não sei que planos delineei
Para este tempo, para esta vida.
Sei apenas que o coração
Está vazio, está sedento
De um amor que nem sei se existe.
Entre o momento que fecho
Os meus olhos e entrego-me
Ao silêncio e à noite,
E o momento em que os abro
E vejo a clareza de um novo dia,
A solidão permanece,
Intacta, firme…
Gritando pela sua liberdade.
O coração pede para
Ser preenchido por algo melhor,
Ele precisa encontrar a sua plenitude.
Espero pelo momento
Em que os meus planos se cumpram;
Espero pela hora em que tudo
Será mais fácil…
Não sou eu que me resguardo na solidão,
É ela, quem ainda não está pronta
Para ir embora…
Falta aquela plenitude,
Falta a outra parte
Que equilibra a mente e o coração.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Uma incerteza que confunde

Não sei bem que vida espero ter, nem sei tão pouco se espero alguma coisa.  O ser humano geralmente cresce com ideais, sonhos, metas, objectivos que em algum momento vai atingir, sabe que vai atingir.
Não sonhei muito, mas também não tive sempre os pés bem assentes neste chão de vida tão complexo e nem sempre real.
Dizem que escolhemos viver, decidimos que viríamos novamente para este planeta cumprir algo, melhorar características, limar arestas que ficaram por limar, mas isto tudo é demasiado confuso quando não sabemos o porquê de termos voltado.
Tentamos nos conhecer a cada dia que passa, tentamos entender o porquê das nossas atitudes, o porquê dos nossos medos, tentamos compreender quando alguém nos faz sofrer, tentamos sempre qualquer coisa, passamos a vida a tentar…
E nestes intervalos da vida, em que não pensamos em nada, ainda assim pensamos, pensamos numa razão, por mais simples que seja, de nem sempre a vida ter sido justa connosco, mas afinal, saberemos o que é justiça? Até que ponto, esta incerteza do ser humano não faz parte do contrato feito na altura da decisão?
Deixei de esperar seja lá o que for,  mas continuo a caminhada, sei que algum dia encontrarei a verdadeira razão da minha vida, ou talvez, passarei por todos os anos, por todas as experiências, sem saber o porquê de tudo isso.
Talvez não esteja definido que precisemos saber o porquê, o importante talvez seja, apenas viver.

© Alexandra Carvalho

domingo, 11 de setembro de 2011

Ir ou ficar

Não é fácil tomar decisões importantes, nunca é. Mas decidir deixar para trás a família e a nossa língua é talvez das decisões mais complicadas.
De que serve ficar no país que nascemos e crescemos,  se esse mesmo país não nos pode acolher como queremos e como merecemos?
Mas de que serve ir embora, se deixamos para trás o nosso verdadeiro eu, preso a todas as tradições, a todas as raízes familiares?
Jamais a mudança foi um processo fácil para o ser humano, mas a verdade, é que sempre conseguimos nos adaptar à nova realidade.
Tenho o coração tão apertado, numa ansiedade desmedida, que há muito não experienciava. Acordo todos os dias com a mesma sensação, esta é a altura certa para mudar, para recomeçar a vida noutro sítio qualquer. Mas apesar dessa sensação, não consigo desligar-me das outras sensações, da saudade, do tremendo medo da solidão. Não sei viver só. Nem consigo conceber essa hipótese.
Estou muitas vezes trancada no meu mundo, num espaço que eu própria crio, mas no entanto, sei que quando quiser sair tenho toda a gente à minha volta, lá fora não será assim, terei o mar a barrar-me o acesso àqueles que eu gosto.
Apesar disso, não fomos criados para ficarmos dependentes de ninguém, fomos criados para percorrer o nosso próprio caminho, e é esse caminho que preciso percorrer agora.

© Alexandra Carvalho

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Recomeçar

Não sei se vou atrás do amor,
Nem tão pouco de uma carreira de sonho,
Vou atrás de mim,
Vou à procura da minha essência
Que se desvaneceu com o tempo.
Não vou atrás de ti,
Mas foste tu quem me despertou,
Soltaste as cordas, tiraste a venda…
Não sei se perdi o medo,
Mas ganhei vontade de recomeçar…

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Não Sou…

Não sou arrogante,

Sou uma pessoa solitária

A quem nem sempre os outros

Conseguem acompanhar…

Não sou preconceituosa,

Tenho apenas os meu conceitos predefinidos,

Não me culpo, cresci assim!

Não sou injusta,

Aprendi a viver num mundo

Repleto de injustiças…

Não sou amiga de toda a gente,

Mas afinal, quem o é?

Não sou perfeita,

Mas mais ninguém é…

Temos todos defeitos,

Uns gostam de nós

E outros não,

Tal como nós gostamos de uns

E de outros não…

Mas não sou pior

Nem melhor por isso,

Sou eu, apenas…

Um ser humano…

domingo, 14 de agosto de 2011

Oscilações e Desencontros (Final)

- Não foi difícil encontrar-te desta vez, parece-me que no teu íntimo estás sempre à espera que eu te encontre, agora até já ficas nas esquinas do meu prédio. – Tão solitário como sempre apareceu-me ali sem eu estar à procura, simplesmente apareceu.
- Mudaste a postura em relação a mim, e sem querer ser mal-educado, não te dei confiança para isso.
- Não me deste confiança, mas a questão é que sentias falta de falar com quem quer que fosse e para tua sorte ou não, calhou-te na rifa, eu. E agora nem vale a pena desconversar, nem falar sobre o mar, o tempo, a solidão, sobre profissões, se bem que acredito que o queiras fazer. Já percebi tudo Afonso, será que tu percebeste?
- O quê? Que ninguém me responde, que me tornei invisível aos olhos de todas as pessoas à minha volta, que no trabalho já ninguém me cumprimenta, já ninguém me dá qualquer informação. E afinal, o que estou aqui a fazer? Afinal, quem és tu, o que te torna tão especial para que me possas ver, para que me possas ouvir?
Se eu estava com vontade de o confrontar e ter todas as respostas, mudei de ideias, os papéis inverteram-se, Afonso estava a pôr-me contra a parede, era ele que estava a confrontar-me com algo que eu desconhecia totalmente e ele estava tão à vontade com isso, ele sabia que estava morto, que a sua vida terrena tinha-se esfumado entre os dedos no passado, num passado que eu nem sabia se era recente ou não. Já eu, não fazia a mais pequena ideia do que estava a acontecer comigo.
Deixei-o lá na esquina, ele ia aparecer novamente e eu naquele momento queria apenas esquecer tudo.
- Encontraste-o?! Vens nervosa! O que te disse? – Alaíde estava à minha espera.
- Ele sabe, não precisa que eu lhe diga que está a viver num plano que já não é o dele. Eu é que não sei nada. E ele percebeu isso, puxou-me para as perguntas que eu não queria fazer a mim própria. Será um dom?! Será que eu estou ligada a ele e por isso consigo vê-lo? Mas como? De outra vida? Eu nunca vi aquele homem até àquela noite no miradouro, e agora parece que ele me persegue.
- Ainda estou a pensar nisso, pode ser um dom, podem ter sido companheiros numa outra vida, e agora ele encontrou uma forma de comunicar contigo, podem ser tantas coisas, se pensarmos bem, desconhecemos o que se passa depois da partida terrena. Também pode querer dizer-te algo, se realmente tiverem sido companheiros, amantes noutra vida ele pode querer dizer-te que precisas ser feliz, porque eu se estou cá por baixo vejo que a tua vida está parada, ele, que está num plano diferente, provavelmente consegue ver melhor isso, talvez até consiga ouvir os teus pensamentos, sentir as tuas emoções.
O fim-de-semana terminou e voltei a estar só, eu e Afonso.
- Rafaela, não queiras fugir do que vês nem do que sentes. – Era a voz dele, agora já me aparecia em casa, com tanta naturalidade que esbarrava o real. Mas eu tenho a solução para isto, não falo, não ouço, não vejo.
- Rafaela, não te feches numa concha que podes ter dificuldade em abrir no futuro. As coisas acontecem por uma razão. Vais ter de descobrir a razão pela qual me consegues ver. Eu poderia dar-te a resposta mas esse é um caminho que tens de ser tu a percorrer.
- Não sei qual foi a parte que não percebeste que não te quero ouvir mais, eu estava bem na minha rotina de vida, estava descansada, não tinha problemas sobrenaturais a me chatear. É assim tão difícil perceber?
- Difícil não será, acho que é consensual, as pessoas não gostam de viver experiências sobrenaturais, e no teu caso, eu sou um estranho, para os devidos efeitos. Rafaela, tens de descobrir a vida.
Ele era um estranho, para os devidos efeitos, acho que a partir deste comentário ficou óbvio que não somos estranhos um ao outro, vidas passadas quem sabe.
- Vidas passadas? É daí que nos conhecemos, quer dizer, que tu me conheces, porque efectivamente, apagaram-me bem a memória, porque eu não faço ideia de quem sejas.
- Não sabes, mas sentiste a afinidade que sempre existiu entre nós. Lembras-te do miradouro, eu nem tinha falado contigo ainda e tu já estavas encantada, a ligação que temos com cada alma, não morre só porque nós morremos, como corpo, essa ligação fica para sempre, e saberás isso quando voltares.
Eu até conseguia entender tudo isso, até conseguia acreditar que fosse real, mas a sensação de desconforto continuava patente. Nós não somos programados para vivenciar experiências destas, para conversar com pessoas que já partiram.
- Se o contexto fosse diferente, tu eras o tipo de pessoa por quem eu provavelmente iria apaixonar-me, eu senti isso lá no miradouro. Talvez venha mesmo de outra vida, ou de várias vidas. Mas isto é tudo muito confuso.
- Não era suposto eu vir cá, eu vim por ti Rafaela. Vim porque tu planeaste uma vida inteira, e chegaste aqui a baixo e tens feito quase tudo ao contrário. Fizeste as escolhas erradas, e deixaste-te ficar numa solidão que não mereces. Deixaste de viver. Não voltaste por acaso, voltaste porque tinhas metas a cumprir, tinhas um propósito, alguns objectivos já conseguiste concretizar mas o principal ainda não.
- Isso quer dizer que ainda vou a tempo?
- Ouve o teu coração e começa a fazer as coisas que realmente te fazem bem, a vida não é só trabalho, é também prazer, é preciso saborear cada dia, porque depois levamos connosco todos esses dias, no momento da partida. Não te vou dizer quem fomos, nem o que somos ainda hoje, o que vamos ser para sempre, para uma eternidade que agora não consegues entender. Apenas quero que olhes para a tua vida e vivas.
Pela primeira vez, consegui vê-lo desaparecer, como uma pluma ao vento. Tão belo, tão iluminado. Afonso era o amor de toda a minha vida, de toda a minha eternidade.
Alguma coisa se passara pois Afonso deixou de aparecer.
A vida voltou ao mesmo, aos tempos de “casa-trabalho”.
Afonso, nunca mais o vi, mas a partir dele, percebi que nada acontece por acaso, e em mais nenhum momento deixei que a vida me passasse ao lado.
Não interessa como começamos a viver, nem quem nos abre os olhos, basta apenas começar a viver.
Afonso, estava a fazer com que eu voltasse a ser quem era, naquele dia no miradouro.
Dei comigo a pensar e a lamentar, por nesta vida não termos estado juntos, mas talvez, o plano era esse, conseguir sobreviver sem ele, e ainda assim, viver a vida de forma plena.
Deixei finalmente, que o meu sorriso voltasse e permiti-me abandonar de uma vez por todas, a solidão.

© Alexandra Carvalho