quinta-feira, 12 de setembro de 2013

https://www.facebook.com/JCarvalhoPhotography
Andei uns dias a pensar no que faria em relação a ti. Se te trazia para o papel ou não.
Mas a verdade, é que quanto mais fugimos do problema mais ele nos atormenta.
Apetece-me contar a nossa história.
Uma história sem nome, sem género.
O nosso percurso existencial é marcado pela passagem de várias pessoas. Umas ficam mais tempo, outras não. E depois há ainda as outras, como tu, que não vão embora, reivindicam o direito de fazer parte da nossa vida por tempo indeterminado.
Não sei há quanto tempo nos conhecemos, lembro-me apenas quando chegaste cá, criança engraçada com sotaque sul-africano.
Eras um miúdo pequeno, nem chegavas ao meu ombro.
Claro está que nessa altura éramos duas crianças e jamais passaria pela nossa cabeça outras coisas, que não as brincadeiras infantis.
Tão depressa surgiste como desapareceste. Já não estavas na escola, não foi difícil perceber que tinhas ido embora, para algum lugar.
A vida é interessante, faz coisas que nem sempre percebemos. Trouxe-te de volta e mentiríamos os dois se disséssemos que os nossos olhares não se encontraram, porque encontram-se de tal forma, que até o corpo pedia para estar junto um do outro.
E de resto, pediu sempre. Férias após férias, com intervalos aquando o nosso coração estava preenchido por outro espírito, outro corpo.
Fomos um do outro, continuamos a ser um do outro, mas não sei se continuaremos.
O tempo mostra-nos que não podemos permanecer em coisas indefinidas, em sentimentos que não sabemos o que são ou até mesmo, se existem.
Teremos sido este tempo todo, simples amigos? Amigos envolvidos numa encruzilhada de impulsos e desejos?
Não nos encantamos um pelo outro, porque o encantamento é o primeiro que morre e muito menos sobrevive à distância.
Não nos apaixonamos um pelo outro, porque a paixão é efémera e não aceita outras paixões pelo caminho.
Então, não me resta uma única definição do que vivemos ao longo destes anos.
Tu porventura, poderás ter alguma, mais racional, a tua defesa para o mundo é essa, a racionalidade.
Se penso em não voltar a estar contigo, surge aqui um aperto, inexplicável.
Talvez tenha chegado o momento de libertarmo-nos, de dizer adeus.


© Alexandra Carvalho

sábado, 7 de setembro de 2013

A voz ficou baça
E é lá de vez em quando que a ouço…
Não me apetece dizer nada,
Esconder-me do mundo
E ficar assim…
Até que o dia pareça mais interessante.
A luz do sol lá fora
Pouco efeito tem em mim,
A escuridão da noite parece
Transportar-se para o dia.
Não sei mais quando é dia,
Quando é noite.
Suspiro uma, duas, três vezes…
A realidade é a mesma.
Estou de tal forma exausta
Que apenas me apetece chorar.
Quero tanta coisa,
Mereço tanta coisa
E a vida não me dá,
Teima em não me dar.
Choro, falo sozinha, liberto-me…
Mas, a mesma solidão
Que me trouxe até aqui,
Também irá arrancar-me,
Mais dia menos dia.


© Alexandra Carvalho

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

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Prendes-me ao teu olhar
E pouco precisas fazer.
Incomoda-me deveras,
Cada adeus que preciso dizer-te;
Cada constatação da tua ausência.
Fazes-me falta. Já to disse?
Porventura, o terei dito algumas vezes.
Na amizade também se ama,
Percebo isso agora, amo-te.
Amo-te por quem és,
Pelo sorriso que emana de ti,
Pela tua beleza interior,
Por todas as tuas palavras,
As que me fazem sorrir, e as outras,
Aquelas que me mostram que estou alheia à vida.
E não, esta não é uma declaração de amor,
É um agradecimento.
E se agora, as lágrimas correm,
É apenas por saudade.
A linha que separa o amor da amizade
É ténue e confusa,
E nesta confusão, acredito que nos amamos
Da forma mais pura e real.

© Alexandra Carvalho

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Espírito

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Talvez nem sempre
O meu espírito aqui esteja,
Deixo apenas o meu corpo vaguear.
Não sei por onde ando,
Mas intimamente, sinto que não estou aqui.
Havia antes uma procura incessante,
Deixou de existir.
Era ela que me puxava para o chão.
Deixei de questionar,
Deixei de ser eu.
O meu sorriso anda foragido
E o brilho dos meus olhos está baço.
Tomara eu encontrar novamente o meu espírito.


© Alexandra Carvalho

domingo, 28 de julho de 2013

Química

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A pele voltou a puxar-nos
Um para o outro.
Até na distância já se manifesta.
Eis a novidade.
O coração não apela a tua presença,
Jamais o fez.
Estou certa que uma coisa não precisa da outra.
Ou pelo menos, o desejo
Não precisa de um sentimento por perto.
Já o contrário, talvez seja impossível.
Que sentimento sobreviverá
Sem que o desejo grite, grite sempre?
Nenhum.
E este, é o primeiro que morre.
O desejo evapora, nunca sabemos como,
Quando, desaparece apenas.
E depois disso, a pessoa que nos era tudo,
Passa a ser nada.
Que estranha é a vida.
Possivelmente, nem todas as pessoas
Nos deixaram algo.
A história apagou-se literalmente.
O caminho segue. Sempre.
Mas tu não, não nos deixamos ir embora.
Será efectivamente a pele,
Ou coração estará por detrás?


© Alexandra Carvalho

terça-feira, 2 de julho de 2013

O sorriso fugiu

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Não sei onde pára o sorriso,
Mas também não sinto vontade
De o procurar.
Logo o sorriso,
A característica que me define.
Senão sorrio, quem sou então?
Nem sempre é fácil sermos nós,
Apetece ser outra pessoa qualquer.
Mas se não formos nós mesmos,
Teremos nos perdido algures.
E todos nós sabemos,
É difícil trazer quem se perdeu.
Mesmo sem sorriso,
Desejo manter-me aqui.
Em algum lugar, numa circunstância qualquer,
Ele voltará para mim.
Meigo e transparente, como sempre foi.
Estes tempos são mais sombrios,
O país não me permite desejar sorrir,
Mas já permitiu antes, milhares de vezes.
Sim, eu sou uma pessoa sorridente,
Serei sempre.
Mas de momento, o sorriso fugiu.

© Alexandra Carvalho

sexta-feira, 28 de junho de 2013

Percepções

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E lá estava eu com aquela necessidade de calar as palavras, com a certeza que isso me impediria de olhar a vida, tal como ela é.
Nem sempre é fácil olhar a vida, reavaliar as nossas atitudes passadas e as presentes. Percebemos que o que para nós não teve qualquer importância, para os outros, de alguma forma os magoou.
É bem provável que eu seja um ser atípico. A mesquinhez passa-me ao lado, e na minha ingenuidade, penso que os que me rodeiam não são dotados de tal sentimento perverso. 
Há uma certa tendência de dramatizar o que não tem nada, mas mesmo nada para ser dramatizado. 
O meu olhar sobre a existência terrena não se prende a coisas pequenas, mas sim, talvez precise de me ajustar.
A verdade é que gosto do meu silêncio, e abomino todo o tipo de imposição. Nada que me seja imposto, será feito com o meu sorriso, com aquele sorriso que tanta gente me caracteriza.
O verdadeiro cerne da questão está na forma como reajo e ajo com todos, se digo que gosto de alguém, é porque gosto, não me verão jamais a dizer que gosto de alguém, se efectivamente não gostar, tanto na amizade como no amor.
Então, sinto-me particularmente decepcionada. 
São as pessoas que nós gostamos que nos decepcionam sempre. São essas pessoas que transformam as coisas sem importância em dramas, e que criam sobre nós o que jamais existiu. 
Eu sou uma pessoa ausente, não gosto de estar o tempo todo em contacto, mas cá dentro, tenho espaço para toda a família, para todos os amigos. 
Não os esqueço apesar do silêncio.
E aí mora o verdadeiro cerne da questão.