domingo, 24 de março de 2013

Efemeridade


Aquele simples e único cabelo branco
Trouxe à tona a efemeridade da vida.
A leveza que é
A nossa passagem na terra.
Sei que já não sou aquela,
A que já existiu antes,
A criança, a adolescente, a jovem.
Mas aquele sinal enfatizou isso.
O tempo urge, passa veloz…
Que conquistei eu até agora?
Nada… não tenho nada!
Tenho a minha integridade,
O meu carácter,
Mas não conquistei nada.
O mundo, tal como está,
Só beneficia os corruptos,
E os outros, como eu,
Deambulam na beira da estrada.
A estrada não é para nós,
Só nos é permitido a berma…
Este simples, único e primeiro cabelo branco,
Fez-me acelerar o desejo de mudança.
O mundo precisa mudar,
Os objectivos têm de ser outros,
E em algum momento,
Terá a justiça de prevalecer.

© Alexandra Carvalho

domingo, 10 de março de 2013

Vida

https://www.facebook.com/JCarvalhoPhotography

Quisera eu apenas estar aqui,
Contemplar a pureza da vida.
Concederam-me tal desejo,
Mas agregaram muito mais do que
A simples e bela pureza de viver.
Deixaram-me vir num tempo
De dúvida, de mudança,
De verdades mascaradas
E mentiras camufladas.
A lucidez da vida,
Poucos a vêem,
Poucos a compreendem.
A humanidade perdeu-se.
Geração após geração;
Enganos após enganos,
E perdemo-nos, desagregamo-nos da nossa alma,
Da nossa essência.
E quando voltarmos para casa,
O arrependimento será grande.

© Alexandra Carvalho

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Catarina, o retrato dos novos tempos

https://www.facebook.com/JCarvalhoPhotography

Catarina apenas sonhava. Via-se noutra vida, noutro contexto.
A dignidade humana, por mais que digam o contrário, está muitas vezes associada a factores externos, que não estão ao nosso alcance.
Catarina mantinha-se fiel ao que era, ao seu perfil de sempre. Mas a carteira não era a de antes. Trocos. Uns simples trocos e uma incerteza abismal acerca do futuro.
Sim, a dignidade não a tinha abandonado mas a descrença havia abalado todas as suas estruturas mentais e agora caminhava também para as físicas. O corpo não se dissocia da mente, para o bem e para o mal.
Este era o momento em que pensava nos porquês e nos quando. Quando o tempo iria abrir uma brecha que lhe trouxesse luz.
Quando Catarina sonhava, não idealizava ostentação ou luxúria. Quando se via noutro contexto, não era na riqueza nem no poder.
Os sonhos eram simples. Trabalho e independência financeira.
Houve tempos em que trabalhar era algo comum, fácil, não fazia parte dos sonhos. Quando alguém sonhava, ambicionava ser o melhor da sua profissão, ser rico, ter uma mansão repleta de empregados. Estes objectivos sim, eram sonhos. Trabalhar, mal ou bem, toda a gente trabalhava.
Os tempos mudaram.
Estudar já não significa independência financeira. E os empregos perderam-se de vista, afundaram-se nas ondas agitadas que os nossos governantes provocaram.
O naufrágio, aos poucos, atingia a todos, Catarina era mais uma e não uma excepção.
É verdade, a dignidade humana fica em risco quando não conseguimos satisfazer as necessidades básicas, quando dependemos dos outros para viver, para sobreviver.
E era assim que Catarina se sentia, a sua dignidade estava ameaçada e o amanhã não previa coisas boas.
Surge a pergunta: o que realmente estamos cá a fazer?

© Alexandra Carvalho

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Recriação Mítica - photoshoot


E lá estava ela, surgia do nada na escuridão da noite. Luminosa e secreta. Que faria ela aqui? Que ser seria? A luz facilmente se transformava em escuridão, e isso, não sabíamos explicar. Era sempre à noite, não víamos nada, apenas a luz que descia silenciosamente, escaleira abaixo. Feiticeira? Bruxa? Certamente, seria algo do género. Ficávamos à espreita, queríamos saber quem era, mas o medo também nos acorrentava. Permanecíamos ali, a olhar de tocaia, a ver se a feiticeira se afigurava à nossa frente. Nunca se afigurou. A verdade, é que um dia ela deixou de aparecer. Deixaram de haver feiticeiras ou fomos nós que deixamos de acreditar nelas? 


Baseado em factos verídicos. 




model: Luisa Abreu

photography/edition: JoanaCarvalho Photography



É proibida a copia ou utilização destas fotografias.

©JCarvalhoPhotography - Todos os direitos reservados.





Deixo aqui apenas uma amostra da sessão fotográfica para quem não tem facebook, limitando assim o acesso ao álbum.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Tristeza

https://www.facebook.com/JCarvalhoPhotography

E de onde vem a tristeza?
Sorrateira, não me pede para entrar.
Aproxima-se silenciosa
E num ápice instala-se em todo o meu corpo.
Os meus olhos pesam,
Impelem-me a fechá-los.
O meu sorriso morre,
Perde o brilho e a vontade.
De que parte vem a tristeza?
E com que direito acha-se ela
De invadir a minha alma?
Dou-lhe as costas,
Mostro que a alma é minha
E mando-a embora.
Mas os meus olhos continuam pesados
E o sorriso permanece fechado.
Uma réstia de tristeza ainda vive em mim.

© Alexandra Carvalho

Os outros

https://www.facebook.com/JCarvalhoPhotography

Não existem apenas dias bons,
E se não existem para nós
Não é diferente para os outros.
Que egoístas somos nós,
Que facilmente esquecemos disso.
E pressionamos, e cobramos,
Quando aquela pessoa não está capaz
De dar nada.
Não consegue sequer dar para si própria,
Quanto mais para os outros.
E é naquele preciso momento,
Que são eles a precisar de nós,
Que o egoísmo ressalta
E apenas conseguimos pedir.
Esquecemos de dar.
O ser humano de tão completo que é,
Acaba por deter de todas as falhas,
E isso, é o que nos faz sofrer.

© Alexandra Carvalho


sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

O animal invisível

https://www.facebook.com/JCarvalhoPhotography

Ouvia-se novamente o som.
A noite caíra e o ruído voltava a fazer parte do ambiente e de cada habitante daquela zona.
Era como se as histórias que tínhamos ouvido em criança se tornassem reais.
O tal animal invisível que todos ouviam. Para nós, tinha sido sempre um mito.
O certo, é que as evidências faziam-nos render à até então, lenda.
Sim, não seria um animal invisível, não poderia ser, mas talvez, um animal com facilidade em ficar camuflado entre as nossas rochas altas e sombrias.
Se calhar, durante o dia dorme como as corujas e à noite canta.
Que animal será este? Será uma ave? Não existem respostas. Ninguém sabe. Só sabemos que ouvimos aquele som, uma espécie de ressonar de um ser humano, uma respiração ofegante, estranha.
Os antepassados, aguçados pela curiosidade aventuraram-se noites seguidas pelas rochas acima e em nenhuma dessas aventuras, tal animal se mostrou aos seus olhos.
Até que um dia deixaram de ouvir.
O animal morreu? Provavelmente.
Mas se durante décadas a sua descendência permaneceu silenciosa, porque só agora aquele ruído nocturno voltou a surgir nas nossas vidas?
Certamente, não existia descendência.
A verdade, é que um outro animal voltou a ocupar o seu lugar.
E surge então a pergunta: estaremos a voltar aos tempos antigos?

Baseado em factos verídicos

© Alexandra Carvalho