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domingo, 13 de dezembro de 2015

Doce encantamento

https://www.facebook.com/JCarvalhoPhotography
A noite caía e ele a pensar nela, o dia clareava e ele continuava a pensar nela.
Tão enfeitiçado que estava.
Mas não podia pensar nisso, havia atrelado a ele, o peso da responsabilidade de um relacionamento. Uma outra mulher estava ligada a ele. Uma ligação já tão ténue mas ainda assim, existente.
Mas que fazer, se os pensamentos levavam-no sempre para o rosto que não era o que estava ali ao seu lado.
Dava consigo a pensar no sorriso, que de resto, tinha sido o que o atraiu primeiro.
Aquele sorriso puro, desinteressado e apaziguador. Mas se começou pelo sorriso, não tardou que o olhar o perseguisse também.
O olhar que o desarmava, como se de um raio X se tratasse.
Era desnecessário dizer que a queria, aquele olhar já o sabia, soube logo. Soube e manteve-se indiferente. Olhava-o de relance e bastava isso para o manter deliciosamente encantado.
Havia dúvidas que ela o quisesse também.
Ocasionalmente passava ela de carro, pela rua da sua casa, e na sua ingenuidade pensava ele, que era intencional aquela passagem.
Ingenuidade e utopia, a casa localizava-se na estrada principal por onde ela teria inevitavelmente de passar.
Todavia, mantinha a doce ilusão que ela apenas passava para o provocar.
Estaria ele a apaixonar-se por aquela mulher desconhecida que mal lhe dava atenção, ou estava ele cansado daquele amor que há muito havia deixado de o ser?
Confundiam-se as coisas na sua cabeça, só tinha a certeza de uma, queria-a e iria tê-la.

© Alexandra Carvalho

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

As incertezas de Henrique

https://www.facebook.com/JCarvalhoPhotography
Por ora, era apenas a lágrima que caía. Miraculosamente. Espontaneamente.
Henrique preparava-se para deixar o passado lá trás, mas aquela lágrima, ele não queria deitar.
Como se a vida se tornasse diferente ou como se ele se tornasse outro ser que não é, só porque não deixava cair aquela lágrima. Que de resto, era genuína.
Nós vamos nos moldando com o tempo, com as vivências, com as relações humanas que vamos experienciando, mas em nenhum momento deixamos de ser nós próprios.
Porém, Henrique mascarava essa verdade, preferia ser outro, ter uma personalidade que lhe impedisse de voltar a se magoar.
Que equivocado estava ele!
O ser humano precisa viver todos os estados, incluindo a desilusão. É assim que ele evolui, que se transforma e encontra a paz.
Somos tentados a cada tropeção que a vida nos dá, em dizer mal de tudo. Da justiça humana, da justiça divina.
É provável que todos os tropeções nos tenham feito aprender algo, tenham contribuído para uma serenidade maior, mais real.
Henrique sabia disso, mas nem sempre o que nós sabemos ser verdade é o que nós aceitamos como certo.
No entretanto, a vida volta a nos sacudir e cometemos os mesmos erros, deixamos espaço para que eles se repetissem.
O equívoco de Henrique era precisamente esse, trapacear a realidade. E a realidade é generosa, ela volta, ela chama-nos até que consigamos a aceitar, e aí sim, os mesmos erros já não se cometem, cometem-se outros. De tão imperfeitos que somos, os seres humanos.
Seria a vida bem mais simples e fácil se aceitássemos a nossa imperfeição. Talvez, olhássemos uns para os outros como iguais.
Fala-se tanto na igualdade, luta-se pela igualdade, que igualdade é essa? O meu conceito é diferente dos outros, até nisso não somos iguais.
Nestas questões sociais, emocionais, existenciais, perdia-se Henrique, não conseguia encontrar fundamento para certos comportamentos, para certas realidades.
A desilusão ainda lhe fervilhava no peito, mas diminuía quando olhava em volta.
O mundo era muito mais do que simples desilusões.


© Alexandra Carvalho 

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Catarina, o retrato dos novos tempos

https://www.facebook.com/JCarvalhoPhotography

Catarina apenas sonhava. Via-se noutra vida, noutro contexto.
A dignidade humana, por mais que digam o contrário, está muitas vezes associada a factores externos, que não estão ao nosso alcance.
Catarina mantinha-se fiel ao que era, ao seu perfil de sempre. Mas a carteira não era a de antes. Trocos. Uns simples trocos e uma incerteza abismal acerca do futuro.
Sim, a dignidade não a tinha abandonado mas a descrença havia abalado todas as suas estruturas mentais e agora caminhava também para as físicas. O corpo não se dissocia da mente, para o bem e para o mal.
Este era o momento em que pensava nos porquês e nos quando. Quando o tempo iria abrir uma brecha que lhe trouxesse luz.
Quando Catarina sonhava, não idealizava ostentação ou luxúria. Quando se via noutro contexto, não era na riqueza nem no poder.
Os sonhos eram simples. Trabalho e independência financeira.
Houve tempos em que trabalhar era algo comum, fácil, não fazia parte dos sonhos. Quando alguém sonhava, ambicionava ser o melhor da sua profissão, ser rico, ter uma mansão repleta de empregados. Estes objectivos sim, eram sonhos. Trabalhar, mal ou bem, toda a gente trabalhava.
Os tempos mudaram.
Estudar já não significa independência financeira. E os empregos perderam-se de vista, afundaram-se nas ondas agitadas que os nossos governantes provocaram.
O naufrágio, aos poucos, atingia a todos, Catarina era mais uma e não uma excepção.
É verdade, a dignidade humana fica em risco quando não conseguimos satisfazer as necessidades básicas, quando dependemos dos outros para viver, para sobreviver.
E era assim que Catarina se sentia, a sua dignidade estava ameaçada e o amanhã não previa coisas boas.
Surge a pergunta: o que realmente estamos cá a fazer?

© Alexandra Carvalho

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Recriação Mítica - photoshoot


E lá estava ela, surgia do nada na escuridão da noite. Luminosa e secreta. Que faria ela aqui? Que ser seria? A luz facilmente se transformava em escuridão, e isso, não sabíamos explicar. Era sempre à noite, não víamos nada, apenas a luz que descia silenciosamente, escaleira abaixo. Feiticeira? Bruxa? Certamente, seria algo do género. Ficávamos à espreita, queríamos saber quem era, mas o medo também nos acorrentava. Permanecíamos ali, a olhar de tocaia, a ver se a feiticeira se afigurava à nossa frente. Nunca se afigurou. A verdade, é que um dia ela deixou de aparecer. Deixaram de haver feiticeiras ou fomos nós que deixamos de acreditar nelas? 


Baseado em factos verídicos. 




model: Luisa Abreu

photography/edition: JoanaCarvalho Photography



É proibida a copia ou utilização destas fotografias.

©JCarvalhoPhotography - Todos os direitos reservados.





Deixo aqui apenas uma amostra da sessão fotográfica para quem não tem facebook, limitando assim o acesso ao álbum.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

O animal invisível

https://www.facebook.com/JCarvalhoPhotography

Ouvia-se novamente o som.
A noite caíra e o ruído voltava a fazer parte do ambiente e de cada habitante daquela zona.
Era como se as histórias que tínhamos ouvido em criança se tornassem reais.
O tal animal invisível que todos ouviam. Para nós, tinha sido sempre um mito.
O certo, é que as evidências faziam-nos render à até então, lenda.
Sim, não seria um animal invisível, não poderia ser, mas talvez, um animal com facilidade em ficar camuflado entre as nossas rochas altas e sombrias.
Se calhar, durante o dia dorme como as corujas e à noite canta.
Que animal será este? Será uma ave? Não existem respostas. Ninguém sabe. Só sabemos que ouvimos aquele som, uma espécie de ressonar de um ser humano, uma respiração ofegante, estranha.
Os antepassados, aguçados pela curiosidade aventuraram-se noites seguidas pelas rochas acima e em nenhuma dessas aventuras, tal animal se mostrou aos seus olhos.
Até que um dia deixaram de ouvir.
O animal morreu? Provavelmente.
Mas se durante décadas a sua descendência permaneceu silenciosa, porque só agora aquele ruído nocturno voltou a surgir nas nossas vidas?
Certamente, não existia descendência.
A verdade, é que um outro animal voltou a ocupar o seu lugar.
E surge então a pergunta: estaremos a voltar aos tempos antigos?

Baseado em factos verídicos

© Alexandra Carvalho

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Francisco Carvalho

https://www.facebook.com/JCarvalhoPhotography 


 Hoje, decidi dedicar tempo e palavras a um homem que não conheci, o meu avô Francisco. 
O homem, de quem provavelmente, herdei o gosto pela escrita, a facilidade nas palavras e na transposição de emoções.
E não o conheci porquê?
A história do meu avô é repleta de ambiguidades, controversas ou não, a vossa consciência ditará o melhor julgamento.
Ele nasceu noutro tempo, noutro século. Proveniente de uma família da alta burguesia, sem dificuldades financeiras e uma vida planeada e garantida.
Como membro de uma casa abastada, cedo viu-se rodeado de compadres e afilhados.
Boaventura, é a sua terra de nascença.
À época do seu nascimento, Boaventura já era freguesia, mas não assim há tanto tempo.
É de extrema importância que saibam isso, o meu avô nasceu no ano 1800 e tal, não sei precisar a data.
As palavras saltam-me já para o papel e apetece-me adiantar os factos, contar as vivências quase surreais que o meu avô viveu.
Mas, conter-me-ei um pouco.
Exigente, Francisco não casou jovem, as mulheres que conhecera, porventura não lhe terão agradado.
Com uma vastidão de terras herdadas e nenhum herdeiro para as herdar, não durante muito tempo.
Até que uma afilhada, uma jovem do povo, foi trabalhar para a sua casa. Piedade, a minha avó.
Francisco, com os seus quase 50 anos e a bela Piedade, analfabeta e menor de idade.
O meu avô encantou-se pela afilhada e empregada.
Agora, conseguem entender quando falei em ambiguidades?
Bem, mas calma, Francisco tem mais controvérsias, sem ser esse encantamento quase pecaminoso.
Ainda jovem, viu-se confrontado com um crime que não cometeu, e prisão, não fazia, de todo, parte dos seus planos.
A sua freguesia foi vítima de um incêndio de grandes proporções nas suas serras.
Por infortúnio, o meu avô havia sido visto a fazer uma pequena fogueira, precisamente no mesmo dia. Naquela época, bastava isso, uma testemunha ocular e a falta do verdadeiro culpado.
A partir daqui, caminhamos para o lado mais surreal.
Ele não queria ser preso, sentimento mais do que legítimo de quem é inocente, sendo que a única opção que surgiu, foi esconder-se. Apesar de toda a gente pensar que havia fugido da terra.
A família estava do seu lado, e tudo fez para o manter a salvo das autoridades e consequentemente da prisão.
Durante sete anos da sua vida, viu-se preso na sua própria casa e sem perspectivas de futuro.
A família cavou um buraco no chão da cozinha, onde apenas cabia uma cadeira e uma luz.
Com amigos nas freguesias vizinhas, nomeadamente, em Ponta Delgada. Cada vez que se avistava a polícia, por aquelas bandas, logo Francisco era avisado.
E nesse preciso momento, voltava ele para o buraco, preso na sua solidão e com a injustiça no peito, a fervilhar.
Durante sete anos, o meu avô não fez outra coisa senão isso, esperar pela justiça, ainda que tardasse.
Nos dias sem perigo, andava pela casa, mas isso não compensava a tristeza, de saber, que mais cedo ou mais tarde, voltaria para debaixo do chão da sua cozinha.
Pelo povo, surgiam rumores, boatos, o que teria sido feito de Francisco Carvalho?
Havia quem dissesse, que estava escondido numa pipa, ou pelo menos, teria sido transportado numa.
Não passavam de boatos, o certo, é que se mantiveram no tempo, e ainda há gente, hoje, que acredita em tal facto.
E por onde andava o culpado? Perguntam vocês, certamente. O culpado era cobarde, e o medo da prisão era bem maior que a culpa, de obrigar um inocente a perder a sua liberdade.
Todavia, no leito da sua morte, a consciência chamou-o à razão, o coração precisava libertar-se dessa culpa, e assim o fez.
O meu avô, estava finalmente livre. Mas, aparecer ao povo, saindo da porta da sua casa, parecia estranho, como se Francisco tivesse enganado a todos, e por tanto tempo. Não, ele arranjou uma forma bem mais ousada para ressurgir à sua terra.  
Veio de barco, com a sua barba por fazer, tal fugitivo que era, olhar injustiçado mas feliz. O povo aplaudiu-o. Recebeu-o com alegria. Principalmente, a longa lista de compadres.
Voltava à vida, que tinha deixado para trás, por imposição.
Trazia consigo, longos anos de reflexão, e muitos versos escritos, quando confinado àquele minúsculo esconderijo.
Sim, depois desta fase surreal e agreste, então surgiu Piedade.
Nesta altura, o mais óbvio, era que Francisco aproveitasse os prazeres carnais, como todos os outros senhores, era uma empregada, tal prática era comum.
Porém, Piedade era bela, um sorriso quente, um olhar furtivo, longos cabelos escuros, uma pele suave e um corpo exuberante.
O certo é que o meu avô, não era como os outros senhores. Encantou-se pela empregada e criou conflitos na sua família, mas fez o que o coração lhe pediu.
Esperou que atingisse a maioridade, e durante esse tempo, sem egoísmo algum, forneceu-lhe os estudos que lhe faltavam, numa escola privada, de freiras.
Piedade era inteligente, não foi difícil aprender.
Tanta carta trocada, tanta atenção, saudade, carinho. Não sei se amor também, temo que a minha acepção de amor seja diferente.
Francisco, superava assim, algumas barreiras. Piedade era plebeia, mas agora, era uma jovem estudada. Ainda assim, restava outra ambiguidade e limitação.
Piedade, era sua afilhada e a Igreja não permitia tal união. Desrespeitava os valores da moral.
Contudo, naquela época, por dinheiro, a Igreja, quase sempre abria excepções.
Tal como o período de abstinência na quaresma, os ricos que pagassem, podiam continuar a comer carne, o mesmo aconteceu neste caso.
Francisco pagou e no mesmo instante, já não era pecado casar com a afilhada.
Sabendo agora da história, é fácil deduzir o porquê de não ter conhecido o meu avô. A larga diferença de idades. Infelizmente, partiu sem conhecer o último filho e nenhum neto.
Apesar da distância temporal, sinto-o intimamente ligado a mim, é o mesmo sangue que corre nas minhas veias, que outrora correu nas dele.
Não existem recordações físicas, mas perduram as memórias intemporais, as histórias que viveu e toda a sua linhagem.
Francisco, apesar da aparência sisuda e austera, foi um homem apaixonado. E a vida, faz mais sentido, quando somos capazes de amar.
Obrigada avô pela tua existência e pela tua coragem.

© Alexandra Carvalho

Baseado numa história verídica.



terça-feira, 27 de novembro de 2012

Emigração, a partida

Imagem retirada da internet

- Carlinha, é tempo de ir embora. Sabes bem.
- Sei, as malas estão prontas, as pernas já pedem para andar, mas o coração ainda não me deixa ir embora.
Carlinha, no auge da sua mocidade via-se confrontada com a despedida. Ia embora. África do Sul estava à sua espera.
Os pais iam à procura da vida que a terra natal não lhes podia dar.
Mas, pensava Carlinha, que tipo de vida iria ter num lugar desconhecido, com uma língua ainda por aprender?
Era tempo de ir embora, bem o sabia, mas o que deixava para trás, sentia ser muito maior do que qualquer vida, que poderia viver lá.
- Carlinha, não vamos para sempre. Se Deus for bom connosco, voltaremos um dia. Vais conhecer amigos lá, és uma boa menina, talvez até te cases por lá.
Coitado, José falava apenas para reconfortar a sua filha única, o tesouro mais precioso. Mas o medo, também ele o sentia.
José não tinha estudos, o País não lhe dava trabalho, era preciso ir embora. Guardar as lágrimas apenas no coração, manter as saudades longe e ganhar coragem. Uma nova batalha avizinhava-se para todos.
Carlinha, porém, não estava convencida, tinha 17 anos, e via-se obrigada a esquecer as suas paixões, as suas amizades, a sua língua.
Iria seguir os pais, era incapaz de não fazer. Não queria ser mais uma filha deixada ao cuidado dos avós, como tantas outras. Não, ela iria.
Maio de 1930, o mês e o ano que jamais irá esquecer.
O fim de uma história e o início de outra.
Mais uma família que partia com o coração apertado.
Apesar disso, eram tão só, três cidadãos para acrescentar à enorme lista da emigração portuguesa.
Terá o País sentido falta deles?

© Alexandra Carvalho

terça-feira, 20 de novembro de 2012

A história de Alexandrina


Esta é a história sobre a jovem Alexandrina, a doce menina que São Vicente viu nascer.
Poderia ser a história de qualquer menina daquela época, já que em 1918, o futuro das mulheres era semelhante entre elas. Mas, não recordaremos mais nenhum passado, além do de Alexandrina.
Agora, olhando ao nosso redor e a todo este desenvolvimento que o Norte presenciou e viveu, torna-se difícil, visualizar uma época mais remota, em que as classes sociais eram demasiadamente vincadas e reconhecíveis.
Os pobres e os ricos. Os que trabalhavam as terras e os que eram os seus donos. Não existia, aquela classe média, que nos habituamos a ver nos nossos dias, e que por infortúnio, estamos a ver desaparecer aos poucos, de um Portugal que se diz desenvolvido.
Ah, antes que se percam nos factos, estamos no ano de 2012.
Não, não se trata de todo, de mais uma história sobre uma qualquer menina pobre que se diferencia e dá azo, a um certo tipo de romance associado à pobreza.
Alexandrina não era pobre, pertencia a uma família tradicional rica, da cidade do Funchal.
Como a maioria das famílias afortunadas e abastadas, esta família possuía vários terrenos no Norte da Ilha da Madeira. Terrenos cultivados por gentes de confiança da terra.
Porém, até aqui, nada de novo.
Mas Alexandrina, trazia consigo muito mais do que sangue nobre.
E a partir daqui, começa a verdadeira história.
Em 1918, ainda eram comuns os casamentos arranjados pelos pais, e esta tradição manteve-se por várias décadas posteriores.
Amor, não era uma palavra muito utilizada na época, os poetas eram os únicos que amavam desmesuradamente, talvez por nascerem dotados de uma profundidade e sensibilidade atípicas, aos restantes mortais. A verdade, é que a maioria pouco sabia sobre o amor.
E se na cidade esta tradição de casamento contratual ainda era vigente, nas aldeias era muito pior.
Um bom ou mau casamento significava, prosperidade ou ruína.
Previsivelmente, todos os pais almejavam um bom casamento, ou melhor, um bom contrato financeiro.
Alexandrina, não era uma excepção, já nascera com um casamento arranjado, com um filho de outra família nobre, uma família nortenha nobre, e é neste casamento que reside todo o drama da história de Alexandrina.
O secretismo das relações extra conjugais era extremo, ainda que muitas esposas tivessem conhecimento das traições, muitas vezes, no seu próprio lar com as empregadas.
Não era novidade, mas mantinha-se em segredo, como se amenizasse a humilhação das esposas.
Alexandrina não tinha apenas sangue nobre a correr nas suas veias, era filha de um Senhor com uma empregada, diga-se desde já, que ele nem fazia ideia desse feito.
Os pobres não tinham uma vida fácil, e o medo de perder o trabalho era imenso, a fome assustava, bem, assusta qualquer ser humano, em qualquer tempo.
Como é de prever, não existia à época, um sistema de adopção como o que existe agora.
A solução daquela empregada só podia ser uma, esconder a gravidez e dar aquela criança. O que não era assim tão difícil, muitos casais da nobreza eram vítimas da desfortuna de não poder ter filhos.
Alexandrina, encontrou facilmente uma família e um lar, que a acolheu condignamente. Como legítima herdeira.
Não se esqueçam, Alexandrina tinha como pai biológico, um Senhor da Nobreza, antes fosse, uma simples plebeia.
A mãe morrera cedo, apanhou tuberculose. A única pessoa que sabia a verdade.
Alexandrina estava prometida a um belo jovem nortenho. E tal, não era sacrifício, pois o que Eduardo tinha de beleza também tinha de carisma e bom carácter. O amor nasceu bem cedo entre eles, entre todos os olhares trocados.
Mas o sangue era o mesmo, Alexandrina era meia-irmã de Eduardo. E essa verdade, ninguém a conhecia.
A moral da nossa sociedade diz, desde sempre, que irmãos não podem ter nada um com o outro, mas estes dois irmãos não se conheciam dessa forma. Seria pecado na mesma? Ah, tomara o mal fosse apenas o pecado, infelizmente não era o pior dos males.
Estes dois desconhecidos irmãos casaram e não tardou que tivessem filhos, um atrás do outro, nasceram com deficiências, físicas, mentais. E a infelicidade e desventura, apoderaram-se daquele jovem casal, por muitos invejado, pela beleza e amor visíveis.
A pergunta que restava, que pecados teriam eles cometido, para ter uma sina tão triste?
Afinal, o pecado não era deles, o pecado da traição existira no passado, o secretismo, o puritanismo acabara por destruir as gerações vindouras.
Não será novidade, se contar que Alexandrina com o passar dos anos, e das tentativas falhadas de ter um filho sem deficiências, embora amasse a todos, acabou por enlouquecer.
O casamento que jamais deveria ter acontecido, acabara na mesma, a vida encarregou-se disso.
O sangue que o casal partilhava, havia causado toda aquela desgraça.
Alexandrina enlouqueceu, Eduardo casou novamente.
E a verdade jamais se soube.
Esta foi a história trágica de Alexandrina.

© Alexandra Carvalho


sábado, 13 de outubro de 2012

A história de Álvaro

https://www.facebook.com/JCarvalhoPhotography?fref=ts

Lá estava Álvaro à janela, olhava o mar no seu esplendor, deliciava-se com o movimento ora suave ora brusco das ondas, que acompanhava fixamente.
Tinha deixado de tentar perceber o tempo, afinal, não era ele que o comandava, chegara à conclusão que era apenas mais uma marioneta, entre todas.
O tempo comanda-se a si próprio.
Esperto teria sido ele, se tal tivesse percebido, mais cedo, antes de tudo.
Teriam existido mais gargalhadas, mais desejos, mais sonhos, mais viagens, mais sentimentos, no fundo, mais vida.
É certo, o tempo anda sozinho, mas também é certo, que o tempo que perdemos, apenas depende de nós.
O erro de Álvaro, perdeu-se no tempo e sem dar conta, não aproveitou nada. Bastavam-lhe as perguntas, a busca incessante de respostas, tudo isso lhe preenchia. Estava errado. Como estava errado.
Quanto mais tempo dedicou às perguntas sem resposta, menos conseguiu perceber o tempo, leve, suave, algumas vezes veloz, outras nem tanto, algumas vezes sofrido, outras menos.
Álvaro passou por todos os estados e não sentiu nenhum.
A vida não é para ser percebida, a vida é para ser sentida.
Estamos cá, então, se estamos, vamos viver os pequenos e os grandes momentos que vão passando por nós.
O segredo era simples, óbvio e Álvaro, tinha rejeitado a simplicidade das coisas, como se fosse improvável que a vida fosse menos secreta.
Dali da sua janela virada para o mar, deliciava-se não só com as ondas mas com a paz que lhe preenchia o coração.
Não pensava em nada, não questionava nada.
A plenitude da vida tinha finalmente se mostrado, Álvaro aprendera a sentir…

© Alexandra Carvalho


domingo, 1 de julho de 2012

Tomás...

https://www.facebook.com/JCarvalhoPhotography

Acho que te terei visto passar por aí, esbarramos sob vários olhares esguios.
Lembro do teu jeito baralhado, confuso, um tanto ou quanto envergonhado.
E agora, fixas-me. Ordenas aos teus olhos que não tenham medo, queres alcançar-me de uma forma ou de outra.
No mesmo momento em que me arrebato por ti, fujo tão apressadamente.
Não sei se fugirei de ti ou de mim. Provavelmente, fujo daquilo que tencionas dar-me, dos sentimentos que almejas provocar em mim.
Tomás, quem és tu afinal?
Não me atraias tão sofregamente, quando mal me conheces.
Não é o meu sorriso que me define, não venhas atrás dele. É o olhar, e só a ele precisas estar atento. Dedica as tuas horas a isso, e quando for o momento certo, fugirás de mim ou amar-me-ás eternamente.

© Alexandra Carvalho



quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Memórias de um Ser Solitário

https://www.facebook.com/JCarvalhoPhotography
Continuavas ali sentado, quase como um objecto inerte. Prostrado em frente a uma janela sem paisagem, procurando na tua memória resquícios da vida que tinhas deixado para trás. Aquela vida que havias saboreado tão intensamente.
Estavas só.
Os anos haviam passado, mas jamais pensaste que a jovialidade, o sorriso aberto, iriam desaparecer juntamente com o tempo.
As memórias confundiam-se, umas com as outras, não tinhas mais a certeza se eram verdadeiras ou não.
Sentias o medo fervilhar dentro de ti, nos teus ossos gastos, no teu coração agora fraco, na tua cabeça confusa e cansada.
Não era medo da partida, do adeus à vida. Tinhas medo da solidão no momento do adeus, tinhas medo de descobrir que as tuas memórias eram irreais.
Afinal, estavas só. Para onde tinham ido todos? Em que momento te tinhas perdido deles?
Sentias, intimamente, que nem sempre tinhas estado só.
Os anos não haviam roubado apenas o teu sorriso ou a tal jovialidade que achavas ter para sempre. Os anos tinham-te roubado muito mais que isso, ficaste sem carinho, ficaste sem atenção, ficaste sem amor.
A tua pele franzida, o respirar ofegante e cansado, os cabelos brancos, o rosto marcado por uma existência longa e intensa, haviam afugentado todos aqueles que antes pareciam gostar de ti.
Estavas velho e estavas só.
Continuaste ali sentado, olhando para lugar nenhum, à espera do simples momento em que mais nenhuma recordação iria se confundir com outra.
Aguardavas apenas o momento da libertação e apesar da solidão, no teu coração ainda fervoroso, conseguias sorrir relembrando os rostos de quem um dia havia passado por ti. E bastava isso.
A libertação acabaria por chegar.

© Alexandra Carvalho

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Saudade

Passei por lá, como se ingenuamente, a minha cabeça me dissesse que talvez os meus olhos encontrariam os teus, castanhos, brilhantes, suaves, iluminando tudo ao meu redor.
Nada, ninguém, não estavas lá.
As pedras da calçada subitamente pareceram mais negras, a escuridão que havia me tomado. A minha alma que ansiava a tua, de repente, estava devastada.
Não quero sentir mais a tua falta, ainda assim, o meu coração relembra-me a saudade todos os dias, um bocadinho mais.
O mar já não te chama?! Deixaste de o procurar, e eu, deixei-me contagiar pelo teu despreendimento. Já não o olho como antes, pouco me diz.
Afinal, sem ti, pouca coisa me completa, pouca coisa me satisfaz.
Deixei a saudade preencher todos os espaços livres no meu coração, na minha palete de emoções e sentimentos.
E carrego-a firme.
Algum dia deixarei morrer a saudade e permitir-me-ei ficar apenas com a recordação dos teus olhos castanhos, brilhantes, suaves.

© Alexandra Carvalho

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Filipe

16 graus, está frio.
Não me apetece estar em casa mas também não me apetece estar em outro qualquer lugar.
Pensei em ti Filipe, dei comigo a lembrar do teu sorriso maroto que se esconde por detrás do homem sério e respeitável. A sociedade respeita-te e eu admiro-te.
Conheço o outro lado de ti, a essência que os demais não conseguem ver, nem conseguem perceber que existe.
Deixei-te ir, mas o meu coração ainda te pertence, pertencerá por toda a eternidade.
Deixei que o teu corpo fosse embora, que outra mulher usufruísse desse corpo que foi meu, tantas vezes, mas a tua alma não foi com ele, não é dela, jamais o será.
Não, eu já não te chamo, deixei de o fazer há muito tempo.
Pediste-me um dia que te substituísse, que procurasse à minha volta um outro ser que completasse o meu, como tu me completavas.
Como nos completávamos, não existia mundo, não existia gente, não existia mar nem sol, nem vento, nem chuva.
No momento que éramos um do outro, não existia mais nada. Sinto saudade dessa perfeição.
Não Filipe, a vida passou, e nós encontramos rumos diferentes, seres humanos diferentes para alojar os nossos sentimentos e as nossas emoções.
Deixa-me ir embora, liberta-me de ti, do nosso amor perfeito, quase irreal.
Continuam os 16 graus, o frio teima em não me deixar o corpo, tenho as mãos frias, a lembrança do teu calor, já não aquece nem o meu corpo nem o meu espírito.
Talvez num outro tempo, ou talvez não.
O sentimento já se completou, foi vivido tão intensamente que chegou a doer. Não temos mais nada que viver, mais nada que partilhar.
Vai embora, e deixa-me ir também.
Este é o adeus para agora, o adeus para sempre.

© Alexandra Carvalho

domingo, 4 de dezembro de 2011

O SABOR DA MORTE (Final)

- Sim, não foi assim tão difícil. Não para mim. Foram duas pessoas, cúmplices, uma deu a ideia, a outra executou.
Duas pessoas, meu Deus, a Daniela e o Ronaldo? Que ingénua que fui, como é que não pensei nisso, mas ele parecia tão legitimamente boa pessoa.
- O meu colega e a filha, só podia.
- Eu lamento muito Anabela, porque eu percebi que estavas a simpatizar com ele, que te estavas a envolver até. Mas fazia tudo parte do plano. Mas não foi a filha.
Hummm, não tinha sido a Daniela? Mas então aquela visita tinha sido um alerta, não uma ameaça, ela também sabia, agora consigo perceber.
- O plano foi todo elaborado pelo Ronaldo e a mãe da Daniela, a Dona Alzira. Há algum tempo atrás, o Tiago encontrou-se com a minha mãe, por acaso, e daquele encontro a verdade veio à tona, ele ficou a saber que tinha um filho. Uma pessoa da sua condição social, podia ter deixado ficar tudo como estava, não havia necessidade de remexer em feridas antigas, mas pelos vistos, ele era boa pessoa. Quis assumir a minha paternidade, e isso incluía, fazer-me como herdeiro. É óbvio que a ex-mulher dele, uma pessoa do campo, que cresceu com pouco, que se tornou uma dama da alta sociedade à custa do trabalho e da fama do marido, não estava disposta a partilhar a riqueza com um filho bastardo. A Daniela, é uma rapariga fútil, jamais consideraria fazer parte de um plano que matasse o pai, que ela tanto idolatrava. Mas o Ronaldo, era uma boa opção. Um homem de poucas emoções, desligado do mundo das afectividades, e que ainda por cima é médico. E por sinal, um médico ambicioso, porque ele não ama a Daniela, envolveu-se com ela, pelo dinheiro do pai. Os dois confessaram, porque eu confrontei-os num encontro um bocado suspeito, eles confessaram, mas a verdade é que não tenho provas. O caso vai cair no esquecimento.
- A Daniela sabe? Porque ela veio cá e falou-me cá umas coisas, como se estivesse a alertar-me, para deixar tudo como está.
- Sim, ela descobriu. Mas a Daniela é uma pessoa diferente, ela não consegue ser má. E se já perdeu o pai, não quer perder a mãe, apesar de tudo. É daquelas pessoas que prefere estar acompanhada de pessoas que lhe fizeram mal, do que ficar só. Mas é boa pessoa, acho que essa é a única coisa boa de ter descoberto que tenho um pai diferente. Ganhei uma irmã.
Naquele momento, senti um alívio. A verdade tinha sido desvendada, a minha análise estava certa, e apenas saber disso, já me reconfortava. Lamento, pela minha ingenuidade, lamento por ter desconfiado do Pedro, e por momentos, ter-me deixado envolver por um homem frio e calculista como o Ronaldo.
Nem todos os crimes são desvendados, nem todas as pessoas criminosas são descobertas, e este homicídio jamais seria desvendado, apesar disso, não me importava mais, o trabalho estava a correr bem, as pessoas tinham esquecido, a minha vida tinha voltado ao que era.
No fundo, só importava uma coisa, o Pedro e a nossa amizade sem limites, e isso, bastava até ao fim da nossa vida.
Este era o sabor da vida.

© Alexandra Carvalho

O SABOR DA MORTE (Parte 12)

- Não sei bem por onde começar. Tu conheces-me há muitos anos, cresceste comigo, de certa forma conheces toda a minha história, excepto uma parte, porque não sou eu o único protagonista. Não me achei no direito de dizer, apesar de seres a minha melhor amiga, primeiro, porque isto foi uma descoberta recente, que me magoou muito, segundo, porque a minha mãe também é uma das envolvidas.
- A tua mãe? Agora eu não estou perceber nada, o que ela tem a ver com o Tiago Fonseca.
- O Tiago Fonseca é meu pai.
Fiquei em choque, completamente em estado de choque. Pai? Mas como? Parece-me tão surreal e descabido ao mesmo tempo.
- Espera, acho que estou com dificuldade em processar essa informação. Como é que ele é teu pai? Como é que nunca soube disso? Como é que foste capaz de lidar com toda esta situação da morte dele, sem me contares nada? Não percebo.
Para além do choque, eu estava decepcionada, ele não podia ter feito isto, me esconder uma coisa destas. Principalmente quando ele sabia que eu estava envolvida no caso da morte do pai.
- Anabela, pára e pensa na minha posição, eu soube disto há pouco tempo, além do mais ainda não sabes tudo, não fales ainda. Ouve-me.
- Pronto, tens razão. Fala.
- A minha mãe antes de tirar o curso superior, sabes que ela foi estudar tarde, os meus avós não tinham grandes possibilidades financeiras, e ela acabou por precisar trabalhar para angariar dinheiro para poder estudar. Na altura, trabalhou como administrativa numa loja de tintas lá na Ribeira Brava. Nessa época conheceu o Tiago Fonseca, já era licenciado em jornalismo, acho que tinha começado a trabalhar há pouco tempo no Continente, apareceu numas férias lá na loja. Acabaram por se envolver, mas a minha mãe já namorava com o meu pai, ou melhor, com o Rui. Como deves imaginar, naquela altura as coisas eram complicadas para uma mãe solteira, ainda hoje é, imagina então naquela época. Ela arranjou forma de acelerar o casamento com o Rui, ele era apaixonado, completamente apaixonado, não foi difícil convencê-lo a casar mais cedo. Claro, o motivo principal era a gravidez, era eu, que vinha a caminho. Um filho de uma aventura com um jornalista de futuro promissor.
Não foi, afinal, tão difícil perceber o porquê dele me ter omitido aquela descoberta. Veio a desestabilizar a imagem perfeita que Pedro tinha da mãe. Não era de todo fácil admitir isso.
- Pedro, mas eu estava aqui, podias ter falado, eu ter-te-ia apoiado.
- Talvez, mas foi na mesma época em que me propus ajudar-te na investigação que eu soube disto. Como é que ia dizer que aquele homem era o meu pai. Por isso, deixei passar um bocado, sozinho fiz algumas investigações, afinal, querendo ou não, aquele homem era o meu verdadeiro pai.
- Tu já descobriste, não já? Tu sabes quem foi. Consigo ver isso no teu olhar.

© Alexandra Carvalho











O SABOR DA MORTE (Parte 11)

O dia do confronto chegou, cheguei a casa e o Pedro estava sentado nas escadas que vão dar à minha porta, alguém entrou e ele aproveitou para subir, era frequente acontecer isto. Olhei para ele, estava com aquele sorriso maroto, o sorriso de sempre, o que me habituei a ver no seu rosto. Primeiro, parei e fiquei a olhar, acabei por sorrir, e naquele momento não foram precisas palavras para perceber que a conversa que se seguiria seria fulcral.
- Chegou à hora de te contar coisas da minha vida que não sabes, acontecimentos que me fizeram sofrer e que nunca achei que fosse correcto te contar, dar-te para cima das costas mais peso, o peso da minha dor. – Ele estava a sofrer, via isso tão claramente.
- Não sei do que se trata, mas tenho a certeza que é algo sobre a morte do jornalista, ou apenas sobre ele. Ali fora, quando olhei para ti, eu vi o meu amigo, a pessoa em quem mais confio, totalmente transparente, com uma necessidade visível nos olhos de se libertar. Por isso, fala, fala sobre tudo, desde o início. Porque de ti só espero a verdade.
Eu sentia a minha voz trémula, como se sentisse, mesmo sem conhecer, a dor do Pedro, como se aquela dor estivesse a fervilhar nas minhas entranhas. Mas tentei manter-me firme, por ele, para que conseguisse despejar cá para fora toda a dor que o atormentava, todas as verdades que deliberadamente deixara longe de mim.
Olhou pela janela da sala, olhou em redor, parecia tentar encontrar as palavras certas para começar a falar, ou talvez, estivesse a ganhar energia para falar sobre o que me tinha escondido. Finalmente, olhou para mim e soube que estava preparado, as mentiras iriam dissipar-se, o pano ia cair, será que o seu segredo, era o motivo da minha queda profissional, será que de alguma forma, o Pedro estava envolvido? Todas as respostas seriam respondidas, e eu estava com medo do que ia ficar a saber.

© Alexandra Carvalho



sábado, 3 de dezembro de 2011

Palácio da Solidão

Estava ali, no meu palácio da solidão, apenas eu. Sonhava, imaginava que estava rodeada de gente, que me sorriam, que no fundo gostavam de mim. De repente tudo desaparecia, eram ilusões, ilusões que eu precisava à força que se tornassem reais. Por vezes perguntava a mim própria porquê que eu sonhava com coisas que eu sabia impossíveis. No fundo já sabia a resposta, era a solidão, aquela solidão que me matava por dentro. De que servia a riqueza? Sim, servia ou tinha servido para trazer à minha vida a infelicidade, a solidão e até o desespero. Matei-me, já não vivo, estou presa entre as paredes frias da minha própria casa.
Há muito tempo fui feliz, quando foi isso? Já não me recordo da data, já faz tanto tempo, uma eternidade. Mas sei que fui feliz, tive amigos, família e alguém que me amava, tudo isso desapareceu. Tudo perdi e tudo ganhei, perdi a amizade, o amor e até a minha dignidade, ganhei a riqueza, a infelicidade e a morte.
O outro mundo chama-me todos os dias, resisto à tentação apesar de todo aquele sofrimento que suporto, mas talvez ainda haja uma oportunidade, será que a mereço? Não, sei que não a mereço e também não deve ser tão doloroso morrer se já vivo na morte?!
Vendi tudo aquilo que tinha e dei a instituições de caridade tudo o que obtive das vendas. Estou pobre, pensei, não faz mal, fiz algo de bom pelo menos uma vez na vida. Será que me reconhecerão por isso? Não, sei que não, provavelmente irão pensar “agora que se sente só faz boas acções para impressionar os outros, é bem hipócrita ela”. Não os censuro por pensarem isso, eu fui hipócrita, fui arrogante , tudo, mas agora não, já percebi que a riqueza não compra a felicidade, eu com toda aquela riqueza apenas comprei a minha morte.
Finalmente morri, não no meu palácio da solidão porque também esse vendi, mas debaixo do alpendre da primeira casa que encontrei.
Morri na solidão.


 
© 1998 Alexandra Carvalho 








terça-feira, 29 de novembro de 2011

O SABOR DA MORTE (Parte 10)


Fiquei tão irritada com aquela invasão à minha casa àquela hora tão imprópria, que no outro dia, a primeira coisa que fiz quando cheguei ao Hospital foi procurar pelo Ronaldo e contar-lhe sobre a visitinha inesperada da sua namorada rica.
- O quê? A Daniela foi à tua casa? Depois da meia-noite? Eu tinha acabado de estar na casa dela, estou confuso.
A sua expressão não o denunciara, ele parecia mesmo surpreendido com isso, no entanto, eu chegara a um ponto em que estava desconfiada de toda a gente. O Pedro mentira-me no outro dia, a namorada do Ronaldo tinha feito um aviso totalmente inesperado, a trama estava a adensar-se.
- Sim, ela esteve lá e sinceramente acho que me fez uma ameaça, disse que sabe que tenho falado contigo, mas que isso não é o principal mas sim as conversas que temos tido, que era para eu ter cuidado, que não sabia dos problemas que poderia vir a ter.
- Ela não mencionou nenhuma vez que te conhecia, muito menos que iria ter contigo. De qualquer forma, andamos um pouco distantes ultimamente, a minha profissão incomoda-lhe no que toca a tempo, ou melhor, à falta de tempo.
Ficamos os dois a olhar um para o outro, aquela química estava cada vez mais forte, mais intensa, muito mais visível para ambos. Estava, no entanto, totalmente fora de questão qualquer envolvimento e ainda mais agora, em que a Daniela estava a mostrar a sua posição.

© Alexandra Carvalho


sexta-feira, 25 de novembro de 2011

O SABOR DA MORTE (Parte 9)


Daniela era conhecida de facto, mas nunca tive interesse em ver revistas cor-de-rosa, nem entrevistas superficiais, então, a cara dela passou-me sempre ao lado. Sabia que era muito fútil, estudou Direito, por obrigação, não tinha o menor interesse em algum dia vir a exercer, movimentava-se muito bem entre todos os círculos sociais, frequentava todo o tipo de eventos, bem, pelo menos aqueles que ela considerava dignos da sua presença.
Era uma mulher muito bonita, esbelta, elegante, tinha uns longos cabelos negros, olhos igualmente negros que contrastavam com a sua cor de pele branca, usava franja, desde pequena mantinha esse detalhe, o que lhe dava um ar diferente, de menina adulta.
A verdade é que quando ela se apresentou, o chão desabou, fiquei atónita, completamente sem reacção, mas o que é que esta mulher veio fazer a uma hora tão tardia ao meu apartamento, aliás, como é que ela sabe onde eu vivo?
- Muito bem, é a filha do jornalista. Mas o que eu não estou a entender é a sua visita. Um bocado fora de contexto, direi.
- Talvez numa primeira análise, mas depois de eu falar o que tenho para falar consigo, as dúvidas certamente se dissiparão.
- Se é para falar novamente da autópsia, digo desde já que não estou interessada em fazê-lo, já passaram meses, eu voltei à minha vida normal, finalmente, não estou interessada em fazer ressurgir problemas, como deve entender não tenho nada para falar.
- Você não, mas eu tenho. Antes de mais, já sei que anda muito próxima do meu namorado, o seu colega Ronaldo, ele não me disse nada, mas eu tenho facilidade em saber de coisas, principalmente quando me interessam. Existem várias vantagens de ser filha de gente importante, temos acesso a tudo, literalmente tudo, então nesta ilha, enfim, você sabe. Mas isso é o de menos, você falar com ele não me atinge muito, mas o teor das conversas já me preocupa.
- Que teor? Que tipo de conversa pode haver entre colegas? Trabalho, apenas.
- Não Anabela, você sabe que não. Mas eu também não pretendo aprofundar isso, eu vim aqui para lhe fazer um aviso.
- Um aviso? Isso é para tomar como algo negativo? Uma ameaça?
- É livre para entender como quiser. É um aviso bem simples de assimilar. Tenha muito cuidado com o que anda a tentar fazer, a tentar saber, mais cedo ou mais tarde, será descoberta, e tenho a plena certeza que você não sabe os problemas que isso vai acarretar para a sua vida. Tenha muito cuidado.
Disse aquilo, deu boa noite e foi embora. Perdi o sono, e a hora tardia já nem me importou muito, fiquei atordoada, com medo. Ela foi firme no que disse, ela sabe que estou a tentar descobrir mais coisas sobre a morte do pai dela. Mas afinal, ela veio ameaçar-me ou alertar-me? É a dúvida que permanece.

© Alexandra Carvalho

O SABOR DA MORTE (Parte 8)


Passaram alguns dias, não voltei a estar nem com o Pedro nem com o Ronaldo, a verdade, é que também não tive uma semana calma, não tive tempo para os procurar mas nenhum deles teve a iniciativa de o fazer.
O trabalho consome a maior parte do meu tempo, e os pequenos momentos livres que tenho é para descansar em silêncio, para ler, ver televisão ou navegar na internet.
Por outro lado, também não queria dar justificações ao Pedro, falar do meu colega, daquilo que conversamos e do que ficou para conversar. Sentia-me pressionada e cansada, deixei-me ficar quieta, na minha rotina diária. Em algum momento voltaria a falar com eles, mas não agora.
Já sabia que depois de ter decidido investigar por conta própria a morte do jornalista a minha vida iria mudar, mas provavelmente não pensei que fosse tanto, na minha ingenuidade nem tinha bem a noção de onde me estava a meter, que confrontos eu poderia vir a vivenciar. Eu sabia que o jornalista era famoso, sabia que era um meio que eu não conhecia bem. É verdade que eu fazia parte de um meio elitista, que conhecia muita gente na saúde e mesmo noutros ramos, mas os anatomistas patológicos não costumam ter um papel muito visível, fazemos parte do meio, mas somos facilmente obscurecidos perante os outros especialistas da saúde. Diga-se de passagem, que é muito mais bonito ser cardiologista, pneumologista, ou algo assim.
Já tinha passado por todo aquele processo de descrença no início de tudo isto, e foi difícil mas efectivamente, não pensei em nenhum momento que pudesse vir a ser ameaçada, mas fui.
Já era tarde, lembro-me de olhar para o relógio do computador e ter visto que já passava da meia-noite, não costumava ficar até tão tarde acordada e muito menos na internet, mas naquele dia tinha decidido tirar tempo para fazer pesquisa e surgiram documentos tão interessantes que me deixei ficar presa ao computador.
A campainha tocou, não a da porta de acesso ao prédio, mas a do meu apartamento, fiquei intrigada, quem é que me vem chatear àquela hora? Devia ser algum vizinho ou alguém do condomínio.
Não era nenhum rosto conhecido, pelo pouco que conseguia ver pelo olho da porta, era uma mulher, não me pareceu suspeito, e abri a porta.
- Boa noite, pela expressão de dúvida já percebi que não sabe quem sou, mas é muito fácil, Daniela Fonseca.

© Alexandra Carvalho