terça-feira, 27 de novembro de 2012

Emigração, a partida

Imagem retirada da internet

- Carlinha, é tempo de ir embora. Sabes bem.
- Sei, as malas estão prontas, as pernas já pedem para andar, mas o coração ainda não me deixa ir embora.
Carlinha, no auge da sua mocidade via-se confrontada com a despedida. Ia embora. África do Sul estava à sua espera.
Os pais iam à procura da vida que a terra natal não lhes podia dar.
Mas, pensava Carlinha, que tipo de vida iria ter num lugar desconhecido, com uma língua ainda por aprender?
Era tempo de ir embora, bem o sabia, mas o que deixava para trás, sentia ser muito maior do que qualquer vida, que poderia viver lá.
- Carlinha, não vamos para sempre. Se Deus for bom connosco, voltaremos um dia. Vais conhecer amigos lá, és uma boa menina, talvez até te cases por lá.
Coitado, José falava apenas para reconfortar a sua filha única, o tesouro mais precioso. Mas o medo, também ele o sentia.
José não tinha estudos, o País não lhe dava trabalho, era preciso ir embora. Guardar as lágrimas apenas no coração, manter as saudades longe e ganhar coragem. Uma nova batalha avizinhava-se para todos.
Carlinha, porém, não estava convencida, tinha 17 anos, e via-se obrigada a esquecer as suas paixões, as suas amizades, a sua língua.
Iria seguir os pais, era incapaz de não fazer. Não queria ser mais uma filha deixada ao cuidado dos avós, como tantas outras. Não, ela iria.
Maio de 1930, o mês e o ano que jamais irá esquecer.
O fim de uma história e o início de outra.
Mais uma família que partia com o coração apertado.
Apesar disso, eram tão só, três cidadãos para acrescentar à enorme lista da emigração portuguesa.
Terá o País sentido falta deles?

© Alexandra Carvalho

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Assistente Social: fardo ou vocação?


Ando para aqui rodeada de questões, maioritariamente, profissionais.
Porquê Serviço Social?
Talvez consiga encontrar uma vastidão de argumentos para justificar a minha escolha, mas ainda assim, tudo permaneceria igual.
Se estou cansada? Sim, de facto, estou.
Cansada da procura, da falta de respostas, cansada de não estar a trabalhar. Tudo se resume a isso. A Falta de Trabalho.
Mas sim, questiono-me na mesma! Porquê Serviço Social? Talvez, pudesse ter percorrido outro caminho, outro curso superior que talvez já me tivesse aberto as portas. Mas tudo isto não passa de um simples talvez.
Não escolhi esta área profissional por mero acaso, para preencher todos os espacinhos do ingresso ao ensino superior, mas, muitos o terão feito.
Não foi de todo o meu caso. Ambicionava um trajecto na área social, muito antes do final do secundário.
Jamais pensei neste curso por puro assistencialismo, filantropia.
Pensei, primariamente, que o meu sentido aguçado de justiça, era necessário num país, que muitas vezes está privado dele.
Ingenuamente, acreditei que pudesse fazer alguma diferença, encontrar respostas para aqueles que apenas conseguem fazer perguntas. Dar visibilidade àqueles que, na maior partes das vezes, estão atrás de todas as luzes.
Lutar contra o que não está certo.
Todavia, depois de tanto tempo, em que nem portas nem janelas se abrem, surge a frustração, mas não só, surge também a descrença, e esse sentimento, acaba por ser fulcral na minha visão do país, onde nasci, onde estudei, onde vivenciei todas as minhas aprendizagens e onde pretendia viver para sempre.
A resposta, é por causa da crise, deixou há muito de fazer sentido. Cedo me apercebi, que muitos postos de trabalho são ocupados por vias duvidosas, favores, compadrios, partidos políticos.
E o resultado disto, é a falta de profissionalismo que por aqui anda, mas o país permitiu que assim fosse.
Quem sou eu para dizer que isso está errado?
As oportunidades têm de ser dadas a todos por igual, não podem existir favorecimentos.
Isso, efectivamente, não é Democracia e muito menos é, Justiça.

© Alexandra Carvalho

terça-feira, 20 de novembro de 2012

A história de Alexandrina


Esta é a história sobre a jovem Alexandrina, a doce menina que São Vicente viu nascer.
Poderia ser a história de qualquer menina daquela época, já que em 1918, o futuro das mulheres era semelhante entre elas. Mas, não recordaremos mais nenhum passado, além do de Alexandrina.
Agora, olhando ao nosso redor e a todo este desenvolvimento que o Norte presenciou e viveu, torna-se difícil, visualizar uma época mais remota, em que as classes sociais eram demasiadamente vincadas e reconhecíveis.
Os pobres e os ricos. Os que trabalhavam as terras e os que eram os seus donos. Não existia, aquela classe média, que nos habituamos a ver nos nossos dias, e que por infortúnio, estamos a ver desaparecer aos poucos, de um Portugal que se diz desenvolvido.
Ah, antes que se percam nos factos, estamos no ano de 2012.
Não, não se trata de todo, de mais uma história sobre uma qualquer menina pobre que se diferencia e dá azo, a um certo tipo de romance associado à pobreza.
Alexandrina não era pobre, pertencia a uma família tradicional rica, da cidade do Funchal.
Como a maioria das famílias afortunadas e abastadas, esta família possuía vários terrenos no Norte da Ilha da Madeira. Terrenos cultivados por gentes de confiança da terra.
Porém, até aqui, nada de novo.
Mas Alexandrina, trazia consigo muito mais do que sangue nobre.
E a partir daqui, começa a verdadeira história.
Em 1918, ainda eram comuns os casamentos arranjados pelos pais, e esta tradição manteve-se por várias décadas posteriores.
Amor, não era uma palavra muito utilizada na época, os poetas, eram os únicos que amavam desmesuradamente, talvez por nascerem dotados de uma profundidade e sensibilidade atípicas, aos restantes mortais. A verdade, é que a maioria pouco sabia sobre o amor.
E se na cidade esta tradição de casamento contratual ainda era vigente, nas aldeias era muito pior.
Um bom ou mau casamento significava, prosperidade ou ruína.
Previsivelmente, todos os pais almejavam um bom casamento, ou melhor, um bom contrato financeiro.
Alexandrina, não era uma excepção, já nascera com um casamento arranjado, com um filho de outra família nobre, uma família nortenha nobre, e é neste casamento que reside todo o drama da história de Alexandrina.
O secretismo das relações extra conjugais era extremo, ainda que muitas esposas tivessem conhecimento das traições, muitas vezes, no seu próprio lar, com as empregadas.
Não era novidade, mas mantinha-se em segredo, como se amenizasse, a humilhação das esposas.
Alexandrina não tinha apenas sangue nobre a correr nas suas veias, era filha de um Senhor com uma empregada, diga-se desde já, que ele nem fazia ideia desse feito.
Os pobres não tinham uma vida fácil, e o medo de perder o trabalho era imenso, a fome assustava, bem, assusta qualquer ser humano, em qualquer tempo.
Como é de prever, não existia à época, um sistema de adopção como o que existe agora.
A solução daquela empregada só podia ser uma, esconder a gravidez e dar aquela criança. O que não era assim tão difícil, muitos casais da nobreza eram vítimas da desfortuna de não poder ter filhos.
Alexandrina, encontrou facilmente uma família e um lar, que a acolheu condignamente. Como legítima herdeira.
Não se esqueçam, Alexandrina tinha como pai biológico, um Senhor da Nobreza, antes fosse, uma simples plebeia.
A mãe morrera cedo, apanhou tuberculose. A única pessoa que sabia a verdade.
Alexandrina estava prometida a um belo jovem nortenho. E tal, não era sacrifício, pois o que Eduardo tinha de beleza também tinha de carisma e bom carácter. O amor, nasceu bem cedo entre eles, entre todos os olhares trocados.
Mas o sangue era o mesmo, Alexandrina era meia-irmã de Eduardo. E essa verdade, ninguém a conhecia.
A moral da nossa sociedade diz, desde sempre, que irmãos não podem ter nada um com o outro, mas estes dois irmãos não se conheciam dessa forma. Seria pecado na mesma? Ah, tomara o mal fosse apenas o pecado, infelizmente não era o pior dos males.
Estes dois desconhecidos irmãos casaram e não tardou que tivessem filhos, um atrás do outro, nasceram com deficiências, físicas, mentais. E a infelicidade e desventura, apoderaram-se daquele jovem casal, por muitos invejado, pela beleza e amor visíveis.
A pergunta que restava, que pecados teriam eles cometido, para ter uma sina tão triste?
Afinal, o pecado não era deles, o pecado da traição existira no passado, o secretismo, o puritanismo acabara por destruir as gerações vindouras.
Não será novidade, se contar que Alexandrina com o passar dos anos, e das tentativas falhadas de ter um filho sem deficiências, embora amasse a todos, acabou por a enlouquecer.
O casamento que jamais deveria ter acontecido, acabara na mesma, a vida encarregou-se disso.
O sangue que o casal partilhava, havia causado toda aquela desgraça.
Alexandrina enlouqueceu, Eduardo, casou novamente.
E a verdade jamais se soube.
Esta foi a história trágica de Alexandrina.

© Alexandra Carvalho


domingo, 11 de novembro de 2012

Não existem proezas

https://www.facebook.com/JCarvalhoPhotography 


A tal proeza não se cumpriu,
E o meu coração,
Permanece inabitado…
Vou permitindo breves estadias,
Duram pouco, nunca me satisfazem.
Ou satisfazem menos
Do que pretendo, do que desejo.
É errado dizer que não gostei
De quem por cá passou,
Mas também o é, dizer
Que amei livremente…
Esse sentimento não existe
Quando as estadias são breves,
Quando o coração
Sentiu-se menos incompleto,
Mas só por uns instantes.
Não passará tudo de encantamento,
Puro encantamento,
Que arrebate, rejuvenesce,
E depois morre.
Nada mais ali encanta,
Nem a voz, nem o sorriso,
Nem o corpo, principalmente,
O corpo, e a alma,
Afigura-se desconhecida.
Tudo nos repele,
O que era encantamento,
Torna-se estranheza, fardo…
Insatisfação…
O coração permanece inabitado,
Mas a minha alma sorri,
E por ora,
É tudo o que preciso.

© Alexandra Carvalho

Remeto-me ao silêncio



O mais certo, é que não tenha dito as palavras todas, mas se as tivesse dito, não passaria eu a ser uma figura medonha? Um ser a evitar?
Deixarei ficar assim, a verdade pelo meio, não magoo, mas, continuará ele igual, a minha passagem terá sido em vão.
E porque me preocupo eu com isso? Aprende, quem quer aprender, cresce, quem quer crescer…
A vida é assim, mas o meu espírito solidário, não quer acomodar-se, aquele ser humano vai ser infeliz, e isto, incomoda-me um pouco.
Ficarei calada, mas, se mais ninguém o empurrar para a sua verdadeira essência, ele não se encontrará sozinho.
Mas assim é a vida, uns encontram-se, outros não.

© Alexandra Carvalho

sábado, 10 de novembro de 2012

Quando a chuva chega


E lá de tempos a tempos,
Volta a chuva,
E com ela,
Aqueles pensamentos,
Deveras, sérios…
As eternas reflexões do eu,
Da nossa alma, ainda indecifrável…

© Alexandra Carvalho

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Estado de Espírito


Onde andam as palavras?
Aquelas que preciso dizer?
Que preciso ouvir?
Ouço uma voz que não quer
Calar, e eu proíbo-a,
Direcciono em outro sentido.
Um tumulto de emoções,
De palavras surdas,
Tudo me atormenta agora.
O meu inconstante estado de espírito,
A minha alma que parece
Ter desencarnado de mim…
E se ela não está,
Onde andarei eu?

© Alexandra Carvalho